Introdução
Nicodemos, um nome que ecoa nos corredores do Novo Testamento, é uma figura tão enigmåtica quanto fascinante. Um fariseu e membro do Sinédrio, o conselho supremo dos judeus, ele surge nas Escrituras como um homem dividido entre a tradição religiosa de sua época e a luz que ele começa a enxergar em Jesus Cristo.
Sua histĂłria Ă© um convite Ă reflexĂŁo sobre coragem, dĂșvida e fĂ©. Ao buscar Jesus Ă noite, longe dos olhos vigilantes de seus pares, Nicodemos representa aqueles que lutam internamente com as demandas de sua posição social e o chamado para algo maior. Ele simboliza a jornada de muitos: um desejo de compreender o inexplicĂĄvel, de encontrar respostas em meio Ă s trevas e de reconhecer a verdade mesmo quando isso exige sacrifĂcio.
Este livro explora a vida de Nicodemos, desde suas interaçÔes iniciais com Jesus atĂ© os momentos decisivos em que sua fĂ© se manifesta de maneira mais pĂșblica e corajosa. NĂŁo Ă© apenas a histĂłria de um homem, mas um espelho para todos que, em algum momento, se encontraram diante da escolha entre permanecer no conforto do conhecido ou abraçar a incerteza da fĂ© em busca da verdade.
Que esta leitura nos inspire a confrontar nossas prĂłprias dĂșvidas, questionar nossas certezas e, acima de tudo, buscar a luz, mesmo que isso signifique caminhar nas sombras por um tempo.
Agora veja cada capĂtulo logo abaixo.
CapĂtulo 1
1O
Dois textos apĂłcrifos constituem o Evangelho de Nicodemus: Atos de Pilatos e Descida
de Cristo ao Inferno. Em Ă© seqĂŒĂȘncia do outro e o completa, embora escritos em Ă©pocas
diferentes.
2Justino, em 150, menciona em seus escritos um texto chamado Atos de PĂŽncio
Pilatos, narrando os acontecimentos posteriores à Crucificação.
Nicodemus narra os episódios da Crucificação e da Ressurreição, mas nada acrescenta
aos Evangelhos canĂŽnicos.
3Curioso é observar que ele cita o local da Crucificação como
sendo o horto onde Cristo foi aprisionado, o GetsĂȘmani, situado ao pĂ© do Monte das
Oliveiras.
4 Eu, Ananias, protetor, de hierarquia pretoriana, perito em leis, vim através das divinas
Escrituras tomar conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e me aproximei dele pela fé, e
permiti-me receber o santo batismo; agora sinto-me, depois de seguir a pista das narraçÔes
relativas a Nosso Senhor Jesus Cristo, que foram feitas naquela época, e que os judeus
deixaram guardadas com PĂŽncio Pilatos; encontrei-as com estavam, escritas em hebraico, e
com o beneplĂĄcito divino traduzi-as para o grego, para o conhecimento de todos os que
invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, durante o reinado de FlĂĄvio TeodĂłsio,
nosso senhor, no ano 17, e sexto de Flåvio Valentino, na nona indicação.
5Todos, pois, quantos leiam e traduzam isto para outros livros, lembrem- se e peçam por
mim para que o Senhor seja piedoso para comigo e me perdoe os pecados que cometi
contra ele.
Paz aos leitores, aos ouvintes e aos seus servidores. Amém.
No ano décimo quinto do governo de Tibério César, imperador dos romanos; no ano
décimo nono do governo de Herodes, rei da Galiléia; no oitavo dia das calendas de abril,
correspondente ao dia 25 de março; durante o consulado de Rufo e Rubelião; no quarto ano
da olimpĂada 202; sendo, nessa Ă©poca, JosĂ© CaifĂĄs o sumo sacerdote dos judeus. Tudo o
que Nicodemus narrou com base no tormento da cruz e da paixĂŁo do Senhor, transmitiu-o
aos prĂncipes dos sacerdotes e aos demais judeus depois de havĂȘ-lo redigido ele mesmo em
hebraico.
6Depois de se haverem reunido em conselho os prĂncipes dos sacerdotes e os escribas,
AnĂĄs e CaifĂĄs e Semes e Dothaim e Gamaliel, Judas, Levi e Neftali, Alexandre e Jairo e os
restantes dentre os judeus apresentaram-se diante de Pilatos acusando Jesus de muitos
feitos, dizendo: "Sabemos que ele é filho de José o carpinteiro e que nasceu de Maria, e
chama-se a si mesmo Filho de Deus e rei; além disso profana o såbado e ainda pretende
abolir a lei de nossos pais". Disse-lhes Pilatos: "E o que ele faz e o que ele pretende
abolir?"
7Os judeus disseram: "Temos uma lei que proĂbe a cura no Sabat; pois bem, este,
servindo-se das mĂĄs artes, curou durante o Sabat coxos, machucados, cegos, paralĂticos,
surdos e endemoninhados".
8Disse-lhes Pilatos: "Se realiza honestamente suas curas, nĂŁo faz
mal algum." Os judeus replicaram: "Se realizasse suas curas honestamente, nĂŁo seria mal
maior; mas para fazĂȘ-las usa a virtude de Belzebu, prĂncipe dos demĂŽnios, expulsa a estes e
a todos que lhes sĂŁo submissos".
9Disse-lhes Pilatos: "Isto nĂŁo Ă© tirar os demĂŽnios pela
virtude de um espĂrito imundo, mas sim pela virtude do deus EsculĂĄpio".
Os judeus disseram a Pilatos: "Rogamos Ă tua autoridade que ele seja apresentado
diante do teu tribunal para que possa ser ouvido". Pilatos entĂŁo chamou-os e disse-lhes:
10"Dizei-me vĂłs como Ă© que eu, um mero governador, posso submeter nada menos que um
rei a interrogatĂłrio?" Eles responderam: "NĂłs nĂŁo dissemos que Ă© um rei, mas sim que ele
mesmo se dĂĄ esse tĂtulo". EntĂŁo Pilatos chamou o mensageiro para dizer-lhe: "Que me seja
apresentado aqui Jesus, com toda a deferĂȘncia".
11O mensageiro saiu, entĂŁo, e logo que
identificou, o adorou; depois tirou o manto que levava em suas mĂŁos e estendeu-o no chĂŁo,
dizendo: "Senhor, passa por cima e entra, que o governador te chama".
CapĂtulo 2
1
Os judeus, vendo o
que o mensageiro havia feito, puseram-se a gritar contra Pilatos, dizendo: "Por que te
serviste de um mensageiro para fazĂȘ-lo entrar, e nĂŁo de um simples pregoeiro? Sabes que o
mensageiro, assim que o viu, passou a adorĂĄ-lo e estendeu seu manto sobre o chĂŁo,
fazendo-o caminhar por cima como se fosse um rei?"
2Pilatos, entĂŁo, chamou o mensageiro e lhe disse: "Por que fizeste isso e estendeste o
manto sobre o chĂŁo, fazendo Jesus passar por cima?" O mensageiro respondeu: "Senhor
governador, quando me enviaste a Jerusalém junto com Alexandre eu o vi montando um
burro, e os filhos dos hebreus iam aclamando-o com ramos nas mĂŁos, enquanto outros
estendiam suas vestes no chĂŁo dizendo: "Salva-nos, tu que estĂĄs nas alturas; bendito o que
vem em nome do Senhor'."
3Os judeus então começaram a gritar e disseram ao mensageiro: "Os jovens hebreus
clamavam em sua lĂngua, como entĂŁo informaste da sua equivalĂȘncia em grego?" O
mensageiro respondeu: "Perguntei a um dos judeus e lhe disse: "Que estĂŁo gritando em
hebraico?' E ele traduziu".
4Pilatos disse-lhes: "Como soa em hebraico o que eles diziam em
altos brados?" Os judeus responderam: "Hosanna membrome; baruchamma; adonai".
EntĂŁo Pilatos lhes disse: "E o que significa Hosanna e as outras palavras?" Os judeus
responderam: "Salva-nos, tu que estĂĄs nas alturas; bendito o que vem em nome do Senhor".
5Pilatos disse-lhes: "Se vĂłs mesmos dais testemunho das vozes que saĂram da boca dos
jovens, que falta cometeu o mensageiro?" Eles se calaram. EntĂŁo o governador disse ao
mensageiro: "Sai e faze-o entrar da maneira que lhe aprouver". Saiu, entĂŁo, o mensageiro e
procedeu da mesma maneira que anteriormente, dizendo a Jesus: "Senhor, entra; o
governador te chama".
6Mas no momento em que Jesus entrava, os que seguravam os estandartes inclinaram-se
e adoraram a Jesus. Os judeus que presenciaram esse gesto de reverĂȘncia e adoração a
Jesus, começaram a gritar desaforos contra os que portavam as bandeiras.
7Mas Pilatos lhes
disse: "Não vos causa admiração ver como eles se inclinaram e adoraram Jesus?" Os judeus
responderam a Pilatos: "NĂłs mesmos vimos como eles se inclinaram e o adoraram". O
governador chamou entĂŁo os que carregavam as bandeiras e lhes disse: "Por que agistes
assim?"
8Eles responderam a Pilatos: "NĂłs somos gregos e servidores das divindades, como
entĂŁo irĂamos adorĂĄ-lo? Saibas que, enquanto estĂĄvamos eretos, nossos corpos se
inclinaram por eles mesmos e o adoraram".
EntĂŁo Pilatos disse aos arquissinagogos e anciĂŁos do povo:
9"Escolhei vĂłs mesmos
alguns varÔes fortes e robustos; que eles segurem os estandartes e vejamos se estes
inclinam-se sozinhos: "EntĂŁo os anciĂŁos escolheram de entre os judeus doze homens fortes
e robustos, aos quais obrigaram a sustentar os estandartes em grupos de seis, e ficaram em
pé diante do tribunal do governador.
10EntĂŁo Pilatos disse ao mensageiro: "Leva-o para fora
do pretĂłrio e introduze-o novamente da maneira que te aprouver". E Jesus saiu do pretĂłrio
acompanhado do mensageiro. Pilatos chamou entĂŁo aqueles que anteriormente estavam
com os estandartes e lhes disse: "Jurei pela saĂșde de CĂ©sar que, se os estandartes nĂŁo se
dobrarem à entrada de Jesus, cortar-vos-ei as cabeças".
11E o governador ordenou novamente
que Jesus entrasse. O mensageiro observou a mesma conduta do inĂcio e rogou encarecidamente a Jesus que passasse por cima de seu manto. E caminhando sobre ele,
entrou. Mas no momento de entrar, novamente os estandartes se dobraram e adoraram
Jesus.
12Quando Pilatos viu a cena, encheu-se de medo e dispĂŽs-se a deixar o tribunal. Mas
enquanto ainda pensava em levantar-se, sua mulher enviou-lhe esta carta: "NĂŁo te envolvas
com esse justo, pois durante a noite sofri muito por sua causa". EntĂŁo Pilatos chamou todos
os judeus e lhes disse: "Sabeis que minha mulher Ă© piedosa e que tende mais para o bem do
que para segui-los em vossos costumes judeus?" Eles disseram: "Sim, sabemos".
CapĂtulo 3
1Pilatos
disse-lhes: "Pois bem, minha mulher acaba de enviar-me este recado: "NĂŁo te envolvas com
esse justo, pois durante a noite sofri muito por sua causa'." Mas os judeus responderam a
Pilatos dizendo: "NĂŁo te dissemos que Ă© um mĂĄgico? Sem dĂșvida enviou um sono
fantĂĄstico a tua mulher".
2Pilatos entĂŁo chamou Jesus e lhe disse: "Como Ă© que estes testemunham contra ti? NĂŁo
dizes nada?" Jesus respondeu: "Se nĂŁo tivessem pode para isso, nĂŁo diriam nada, pois cada
um Ă© dono da sua boca para falar coisas boas e mĂĄs: eles verĂŁo".
3Mas os anciĂŁos dos judeus responderam, dizendo a Jesus: "Que Ă© que nĂłs vamos ver?
Primeiro, que tu vieste ao mundo por fornicação; segundo, que o teu nascimento em Belém
trouxe como conseqĂŒĂȘncia uma matança de crianças; terceiro, que teu pai JosĂ© e tua mĂŁe
Maria fugiram para o Egito por encontrarem-se ameaçados na cidade".
4EntĂŁo, alguns dos que ali estavam presentes, e que eram judeus piedosos, disseram:
"Nós não estamos de acordo que haja de fornicação, mas sim sabemos que José desposou
Maria e que não foi gerado através de fornicação". Pilatos disse aos judeus que afirmavam
a sua origem através de fornicação: "Isto que dizeis não é verdade, posto que os esponsais
foram celebrados, segundo afirmam vossos prĂłprios compatriotas".
5EntĂŁo AnĂĄs e CaifĂĄs
disseram a Pilatos: "Todos juntos afirmamos e nĂŁo cremos que ele tenha nascido de fornicação; estes sĂŁo prosĂ©litos e seus discĂpulos". Pilatos chamou AnĂĄs e CaifĂĄs e disse-
lhes: "Que significa a palavra prosélito?" Eles responderam: "Que nasceram de pais gregos e fizeram-se judeus agora".
6Ao que contestaram os que afirmavam que Jesus nĂŁo havia
nascido de fornicação (isto é: Låzaro, Astério, AntÎnio, Tiago, Amnés, Zeras, Samuel,
Isaac, Crispo, Agripa e Judas): "Nós não nascemos prosélitos, mas sim somos filhos de
judeus e dizemos a verdade, pois encontravam-nos presentes nas bodas de José e de Maria".
7Pilatos chamou estes doze que afirmavam não haver Jesus nascido de fornicação e
disse-lhes: "Eu os conjuro pela saĂșde de CĂ©sar, dizei-me, Ă© verdade o que afirmastes, que
nĂŁo nasceu de fornicação?" Eles responderam: "NĂłs temos uma lei que proĂbe jurar, porque
Ă© pecado; deixe que estes jurem pela saĂșde de CĂ©sar que nĂŁo Ă© verdade o que acabamos de
dizer, e seremos réus de morte".
8EntĂŁo Pilatos disse a AnĂĄs e CaifĂĄs: "Nada respondem a
isto?" Eles replicaram: "Tu dĂĄs crĂ©dito a estes doze que afirmam o nascimento legĂtimo de
Jesus; enquanto isso, todos, em massa, estamos bradando que é filho de fornicação, que é
feiticeiro e que se chama a si prĂłprio Filho de Deus".
EntĂŁo Pilatos ordenou que toda a multidĂŁo saĂsse, Ă exceção dos doze que negavam a
origem da fornicação, e ordenou que Jesus fosse separado.
9Depois lhes disse: "Por que
razĂŁo querem dar-lhe a morte?" Eles responderam: "TĂȘm inveja dele por curar no Sabat".
Ao que respondeu Pilatos: "E por uma boa obra querem matĂĄ-lo?"
E, cheio de ira, saiu do pretĂłrio e disse-lhes: "Tomo por testemunha o sol de que nĂŁo
encontro nenhuma culpa neste homem". Os judeus responderam e disseram ao governador:
10"Se nĂŁo fosse um malfeitor, nĂŁo o haverĂamos entregado a ti". E Pilatos disse: "Tomai-o
vós e julgai-o segundo vossas leis". Então os judeus disseram a Pilatos: "Não nos é permitido matar ninguém". Ao que Pilatos contestou: "A vós sim Deus proibiu de matar
mas, e a mim?"
E, entrando de novo no pretĂłrio, chamou Jesus Ă parte e disse-lhe: "Ăs o rei dos
judeus?"
CapĂtulo 4
1Jesus respondeu: "Dizes isto por conta prĂłpria ou pelo que os outros te disseram
de mim?" Pilatos replicou: "Mas serå que também sou por acaso judeus? Teu povo e os
pontĂfices puseram-te em minhas mĂŁos, que fizeste?" Jesus respondeu: "Meu reino nĂŁo Ă©
deste mundo pois, caso contrĂĄrio, meus servidores teriam lutado para que eu nĂŁo fosse
entregue aos judeus; mas o meu reino nĂŁo Ă© daqui".
2Então Pilatos disse: "Logo, tu és rei?"
Jesus respondeu: "Tu dizes que eu sou rei; pois para isto nasci e vim ao mundo, para que
todo aquele que é da verdade, ouça minha voz". Pilatos disse-lhe: "Que é a verdade?" Jesus
respondeu: "A verdade provém do céu".
3Pilatos disse: "NĂŁo hĂĄ verdade sobre a terra?" E
Jesus respondeu a Pilatos: "EstĂĄs vendo que os que dizem a verdade sĂŁo julgados pelos que
exercem o poder sobre a terra".
E deixando Jesus no interior do pretório, Pilatos foi até os judeus e lhes disse: "Eu não
encontro culpa alguma nele". Os judeus replicaram: "Ele disse: "Eu sou capaz de destruir
este templo e reedificĂĄ-lo em trĂȘs dias.
4Pilatos disse: "Que templo?" Os judeus
responderam: "Aquele edificado por SalomĂŁo em quarenta e seis anos, ele diz que vai
destruĂ-lo e reedificĂĄ-lo ao final de trĂȘs dias". Pilatos disse: "Eu sou inocente do sangue
deste justo; vĂłs vereis". E os judeus disseram: "Seu sangue sobre nĂłs e sobre nossos
filhos".
5EntĂŁo Pilatos chamou os anciĂŁos, os sacerdotes e os levitas e disse-lhes em segredo:
"Não agi assim, pois nenhuma das vossas acusaçÔes merece a morte, jå que elas referem-se
às curas e à profanação do Sabat". Os anciãos, sacerdotes e levitas responderam: "Se
alguém blasfema contra César é ou não digno da morte?" Pilatos disse-lhes: "à digno da
morte". Os judeus disseram:
6"Pois se alguém que blasfema contra César é digno da morte,
saiba que este blasfemou contra Deus".
Depois o governador mandou que os judeus saĂssem do pretĂłrio, e chamando Jesus,
disse-lhe: "Que vou fazer contigo?" Jesus respondeu: "Faz como te foi ordenado".
7Pilatos disse: "E como me foi ordenado?" Jesus respondeu: "Moisés e os profetas falaram sobre a minha morte e sobre a ressurreição". Os judeus e os ouvintes perguntaram então a Pilatos
dizendo:
8"Por que continuas ouvindo essa blasfĂȘmia?" Pilatos respondeu: "Se estas palavras
sĂŁo blasfĂȘmias, prendei-o por blasfĂȘmia, levai-o Ă vossa sinagoga e julgai-o segundo vossa
lei". Os judeus contestaram: "EstĂĄ escrito em nossa lei que se um homem peca contra outro
homem merece receber quarenta açoites menos um; mas diz que se alguém blasfema contra
Deus deve ser apedrejado".
9Pilatos disse-lhes: "Tomai-o por vossa conta e castigai-o como quiserdes". Os judeus
replicaram: "NĂłs queremos que seja crucificado". Pilatos contestou: "NĂŁo merece a
crucificação".
Então o governador lançou um olhar ao seu redor sobre a turba de judeus que estava
presente e, ao ver que muitos deles choravam, exclamou: "Nem toda a multidĂŁo quer que
morra".
10Os anciĂŁos dos judeus disseram: "Por isso viemos todos em massa, para que
morra". Pilatos perguntou-lhes: "E por que deverĂĄ morrer?" Os judeus responderam:
"Porque chamou-se a si prĂłprio filho de Deus e rei".
Um certo judeu de nome Nicodemus pĂŽs-se diante do governador e disse: "Rogo-te,
bondoso como és, permiti-me dizer umas palavras:
11"Pilatos respondeu: "Fala". E
Nicodemus disse: "Tenho falado nestes termos aos anciĂŁos, aos levitas, Ă multidĂŁo inteira
de Israel reunida na sinagoga: "Que pretendeis fazer com este homem? Ele opera muitos milagres e prodĂgios como nenhum outro foi nem serĂĄ capaz de fazer. Deixai-o em paz e
nĂŁo trameis nada contra ele; se os seus prodĂgios tĂȘm origem divina, permanecerĂŁo firmes;
porĂ©m, se tĂȘm origem humana, dissipar-se-ĂŁo.
12Pois também Moisés, quando foi enviado da
parte de Deus ao Egito, fez muitos prodĂgios, previamente assinalados por Deus, na
presença do Faraó, rei do Egito. E estavam ali alguns homens a serviço do Faraó, Jamnes e
Jambres, os quais operaram, por sua vez, nĂŁo poucos prodĂgios como os de MoisĂ©s, e os
habitantes do Egito tinham Jamnes e Jambres por deuses.
13Mas como os seus prodĂgios nĂŁo
provinham de Deus, eles pereceram, bem como os que lhes davam crédito. E agora, deixai
livre este homem, pois nĂŁo Ă© digno de morrer'."
Os judeus disseram entĂŁo a Nicodemus: "Tu te fizeste discĂpulo dele e por isso falas
em seu favor". Nicodemus disse-lhes: "Mas entĂŁo tambĂ©m o governador fez-se discĂpulo
dele porque fala em sua defesa? Não o colocou César neste cargo? Os judeus estavam com
muita raiva e rangiam os dentes contra Nicodemus.
CapĂtulo 5
1Pilatos disse-lhes: "Por que rangeis os
dentes contra ele ao ouvir a verdade?" Os judeus disseram a Nicodemus: "A ti sua verdade
e sua parte". Nicodemus disse: "Amém, amém, que assim seja como haveis dito".
Mas um dos judeus adiantou-se e pediu a palavra ao governador. Este lhe disse: "Se
queres dizer algo, diz".
2E o judeus assim falou: "Eu estive durante trinta e oito anos deitado
numa liteira, cheio de dores. Quando Jesus veio, muitos dos que estavam endemoninhados
e sujeitos a diversas doenças foram curados por ele. Então alguns jovens compadeceram-se
de mim e, pegando-me com liteira e tudo, levaram-me até ele.
3Jesus, ao ver-me,
compadeceu-se de mim e disse-me: "Pega tua maca e anda'. Eu peguei minha maca e
comecei a andar". EntĂŁo os judeus disseram a Pilatos: "Pergunta-lhe que dia era quando foi
curado". E o interessado disse: "Era Sabat".
4Os judeus disseram: "JĂĄ nĂŁo te havĂamos
informado de que curava no Sabat e tirava demĂŽnios?"
Outro judeus adiantou-se e disse: "Eu era cego de nascença, ouvia vozes, mas não via
ninguém, e, ao ver passar Jesus, gritei bem alto: "Filho de Davi, apiedai-te de mim'. E
compadeceu-se de mim, impĂŽs suas mĂŁos sobre os meus olhos e imediatamente recuperei a
visĂŁo".
5E outro judeus adiantou-se e disse: "Estava arqueado e endireitou-me com uma
palavra". E outro disse: "Havia contraĂdo lepra e ele curou-me com uma palavra".
E certa mulher chamada Berenice (VerÎnica) começou a gritar de longe, dizendo:
"Encontrando-me doente com hemorragia, toquei a extremidade de seu manto e a
hemorragia que eu vinha tendo por doze anos consecutivos, parou".
6Os judeus disseram:
"Existe um preceito que proĂbe apresentar uma mulher como testemunha".
E alguns outros, muitos homens e mulheres gritavam, dizendo: "Este homem Ă© profeta e
os demÎnios submetem-se a ele". Pilatos disse aos que afirmavam isto: "Por que também
vossos mestres nĂŁo se submeteram a ele?" Eles responderam: "NĂŁo sabemos".
7Outros
afirmaram que havia ressuscitado LĂĄzaro do sepulcro, defunto jĂĄ de quarenta dias. EntĂŁo,
cheio de medo, o governador disse Ă multidĂŁo de judeus: "Por que vos empenhais em
derramar sangue inocente?"
E depois de chamar Nicodemus e aqueles doze homens que afirmavam a origem limpa
de Jesus, disse-lhes: "Que devo fazer, pois estå forjando um alvoroço entre o povo?"
8Disseram-lhe: "NĂłs nĂŁo sabemos; eles verĂŁo". Convocou de novo Pilatos a multidĂŁo de
judeus e disse-lhes: "Sabeis que tenho por costume soltar um prisioneiro durante a festa dos
ĂĄzimos. Pois bem, estĂĄ preso e condenado um assassino chamado BarrabĂĄs, e tenho
também este Jesus que estå agora na vossa presença, e em quem não encontro culpa
alguma.
9A quem quereis que solte?" Eles gritaram: "A BarrabĂĄs". Pilatos disse-lhes: "Que
farei, pois, de Jesus, o chamado Cristo?" Os judeus responderam: "Que seja crucificado!"
E alguns dentre eles disseram: "Não és amigo de César se soltas a este, porque chamou-se a
si próprio Filho de Deus e rei; se assim procedes, queres a este por rei e não a César".
Pilatos então, encolerizado, disse aos judeus: "Vossa raça é revoltada por natureza e
enfrentais vossos benfeitores".
CapĂtulo 6
1Os judeus disseram: "A quais benfeitores?" Pilatos
respondeu: "Vosso Deus tirou-vos do Egito, livrando-vos de uma cruel escravidĂŁo; vos
manteve sãos e salvos através do mar bem como através da terra, alimentou-vos com manå
no deserto e deu-vos codornas, deu-vos de beber ĂĄgua tirada de uma rocha e deu-vos uma
lei, e, depois de tudo isso, encolerizastes vosso Deus, fostes atrĂĄs de um bezerro fundido,
exasperastes vosso Deus e Ele dispÎs-se a exterminar-vos; porém, Moisés intercedeu por
vĂłs e nĂŁo fostes entregues Ă morte.
2E agora acusais a mim de odiar o imperador".
E, levantando-se do tribunal, dispÎs-se a sair. Mas os judeus começaram a gritar
dizendo: "Nós reconhecemos como rei a César e não a Jesus. E ainda mais, os Magos
vieram oferecer-lhe dons trazidos do Oriente como para o seu rei; e quando Herodes tomou
conhecimento através dessas personagens de que um rei havia nascido, tentou acabar com
ele.
3Mas seu pai JosĂ© tomou ciĂȘncia do fato e levou-o juntamente com a mĂŁe, e fugiram
todos para o Egito. E quando Herodes soube disso, exterminou os filhos dos hebreus que
haviam nascido em Belém".
Quando Pilatos ouviu estas palavras, temeu, e depois de impor silĂȘncio Ă s turbas, jĂĄ
que estavam gritando, disse-lhes: "EntĂŁo Ă© este aquele a quem Herodes buscava?" Os
judeus responderam: "Sim, Ă© este".
4EntĂŁo Pilatos pegou ĂĄgua e lavou suas mĂŁos, de frente
para o sol, dizendo: "Sou inocente do sangue deste justo; vĂłs vereis". E novamente os
judeus começaram a gritar: "Seus sangue sobre nós e sobre nossos filhos". Então Pilatos
mandou que fosse corrido o véu do tribunal onde estava sentado e disse a Jesus: "Teu povo
desmentiu-te como rei.
5Por isso decretei que em primeiro lugar sejas flagelado, de acordo
com o antigo costume dos reis piedosos, e que depois sejas dependurado na crus no horto
onde foste aprisionado. E Dimas e Gestas, ambos malfeitores, serĂŁo crucificados
juntamente contigo".
6Assim, Jesus saiu do pretĂłrio acompanhado dos dois malfeitores. E, em chegando ao
lugar convencionado, despojaram-no de suas vestes, enrolaram-no em um lençol e puseram
uma coroa de espinhos ao redor de suas tĂȘmporas. Dependuraram os dois malfeitores, de
maneira semelhante. Enquanto isso, Jesus dizia: "Pai, perdoai-os, porque nĂŁo sabem o que
fazem".
7E os soldados repartiram entre si as suas vestes, e todo o povo estava em pé
contemplando-o. E os pontĂfices e tambĂ©m os chefes zombaram dele, dizendo: "Salvou os
outros; salve-se, então, a si próprio; se este é o Filho de Deus, que desça da cruz". Os
soldados, por sua vez, aproximavam-se dirigindo-lhe escĂĄrnios e oferecendo-lhe vinagre
misturado com fel, enquanto diziam: "Tu és o rei dos judeus: salva-te a ti mesmo".
8E depois
de proferir a sentença, o governador mandou que na forma de um tĂtulo fosse escrito em
cima da cruz a sua acusação em grego, latim e hebraico, de acordo com o que os judeus
haviam dito: "Rei dos Judeus".
9E um daqueles ladrÔes que haviam sido dependurado disse-lhe assim: "Se tu és o
Cristo, salva-te a ti mesmo e a nĂłs". Mas Dimas, em resposta, repreendeu-o dizendo: "Tu
não temes a Deus, ainda que estejas na mesma condenação? E a nós, certamente, ela no
cabe bem, pois recebemos a recompensa justa pelas nossas obras; mas este nĂŁo fez nada de
mal".
10E dizia: "Senhor, lembra-te de mim no teu reino". E Jesus disse-lhe: "Em verdade,
em verdade te dito que hoje estarĂĄs comigo no paraĂso".
Era a hora sexta quando as trevas se fecharam sobre a terra até a nona hora, por haver
escurecido o sol; e o véu do templo rasgou-se ao meio. Jesus, então, com voz grave, disse:
11"Pai, baddach efkid ruel", que significa: "Em tuas mĂŁos entrego o meu espĂrito". E, assim
dizendo, entregou sua alma. O centuriĂŁo, ao ver o que aconteceu, louvou a Deus dizendo:
"Este homem era justo". E a multidĂŁo que assistia ao espetĂĄculo, ao contemplar o
acontecido, passou a bater no peito.
O centuriĂŁo, por sua vez, transmitiu ao governador o ocorrido. Este, ao ouvi-lo,
entristeceu-se assim como sua mulher, e ambos passaram todo aquele dia sem comer nem
beber.
CapĂtulo 7
1Depois Pilatos fez chamar os judeus e disse-lhes: "Vistes o que se passou?" Mas eles
responderam: "Foi um simples eclipse do sol, como de costume".
Enquanto isso, seus conhecidos permaneciam a distĂąncia; e as mulheres que o haviam
acompanhado desde a Galiléia estavam contemplando tudo isto. Mas havia um homem
chamado José, senador, vindo de Arimatéia, que esperava o reino de Deus.
2Aproximou-se,
entĂŁo, de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Depois foi baixar o cadĂĄver da cruz e
envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no sepulcro talhado em pedra que ainda não
havia sido usado.
Quando os judeus ouviram dizer que José havia reclamado o corpo de Jesus,
começaram a procurå-lo, assim como também aqueles que haviam declarado que Jesus não
havia nascido de fornicação.
3Nicodemus e muitos outros que se haviam apresentado diante
de Pilatos para dar testemunho das suas boas obras. E, como todos se houvessem
escondido, somente Nicodemus apareceu, porque era varĂŁo principal entre os judeus.
Assim, Nicodemus disse-lhes: "Como haveis entrado na sinagoga?" Os judeus
responderam: "E tu? Como entraste na sinagoga? Posto que Ă©s seu cĂșmplice, seja tambĂ©m
sua parte contida no século vindouro". E Nicodemus disse: "Assim seja, assim seja".
4José, por sua vez, apresentou-se de maneira semelhante e disse-lhes: "Por que haveis ficado
apreensivos comigo por ter reclamado o corpo de Jesus? Pois sabei que depositei-o no meu
novo sepulcro, depois de havĂȘ-lo envolvido num lençol branco, e fiz correr a pedra sobre a
entrada da gruta.
5Mas nĂŁo vos portastes bem com aquele justo, pois que, nĂŁo contentes em
crucificå-lo, também o atravessastes com uma lança". Os judeus então detiveram José e
mandaram que fosse aprisionado até o primeiro dia da semana. Depois disseram-lhe: "Bem
sabes que o avançado da hora não nos permite fazer nada contra ti, pois o såbado jå estå
amanhecendo; mas saiba que nem sequer far-se-ĂĄ o favor de dar-te sepultura, mas sim
exporemos teu corpo às aves do céu".
6José retrucou: "Esta maneira de falar é a do soberbo
Golias que injuriou o Deus vivo e o santo Davi. Pois o Senhor disse através do profeta: "A
mim corresponde a vingança e eu retribuirei'. E ainda hå pouco, aquele que não é
circuncidado segundo a carne, mas é circunciso de coração, tomou ågua, lavou as mãos de
frente para o sol e disse: "Sou inocente do sangue deste justo; vĂłs havereis de ver'.
7Mas
vĂłs respondestes a Pilatos: "Seu sangue sobre nĂłs e sobre nossos filhos'. Agora, entĂŁo,
temo que a ira do Senhor recaia sobre vĂłs e sobre vossos filhos, como dissestes". Ao ouvir
essas palavras os judeus sentiram seus coraçÔes encherem-se de raiva, e, depois de capturar
José, detiveram-no e prenderam-no em uma casa onde não havia nenhuma janela; depois
selaram a porta onde José estava preso e alguns guardas permaneceram junto dela.
8E no sĂĄbado os arquissinagogos, os sacerdotes e os levitas estabeleceram que no dia
seguinte todos deveriam encontrar-se na sinagoga. E bem de madrugada a multidĂŁo inteira
pĂŽs-se a deliberar que tipo de morte haveriam de dar-lhe. E estando o conselho reunido,
ordenaram que o fizessem comparecer com grande desonra. E abriram a porta mas nĂŁo o
encontraram. Então o povo ficou fora de si e todos encheram-se de admiração ao encontrar
os selos intactos e a chave em poder de CaifĂĄs. Com isto, nĂŁo se atreveram a pĂŽr as mĂŁos
sobre aqueles que haviam falado diante de Pilatos em defesa de Jesus.
CapĂtulo 8
1E enquanto estavam ainda sentados na sinagoga, cheios de admiração pelo caso de José, chegaram alguns dos guardas, aqueles a quem os judeus haviam encomendado a
Pilatos a custĂłdia do sepulcro de Jesus, e disseram que nĂŁo foram seus discĂpulos que o
haviam tirado de lĂĄ.
2E foram prestar contas aos arquissinagogos, aos sacerdotes e aos
levitas dizendo-lhes o que aconteceu; isto Ă©, como "sobreveio um terremoto e vimos um
anjo que descia do céu, que retirou a pedra da boca da gruta, sentando-se depois sobre ela.
E brilhou como neve e como relĂąmpago. Com o que nĂłs, cheio de medo, ficamos como
mortos.
3EntĂŁo ouvimos a voz do anjo que falava Ă s mulheres que se encontravam junto ao
sepulcro: "NĂŁo temais, pois sei que buscais a Jesus, o que foi crucificado. NĂŁo estĂĄ aqui;
ressuscitou como havia dito; vinde, vede o lugar onde jazia o Senhor. E agora ide
rapidamente e dizei aos seus discĂpulos que ressuscitou de entre os mortos e que estĂĄ na
Galiléia'."
4Os judeus entĂŁo disseram: "A quais mulheres falava ele?" Os da guarda responderam:
"NĂŁo sabemos quem eram ". Os judeus disseram: "A que horas isto aconteceu?" Os da
guarda responderam: "ĂŁ meia-noite". Os judeus disseram: "E por que nĂŁo as detivestes?"
Os da guarda responderam: "Ficamos como mortos pelo medo, nĂŁo acreditando que
poderĂamos ver de novo a luz do dia, como irĂamos detĂȘ-las?" Os judeus disseram: "Deus
vive e nĂłs nĂŁo acreditamos".
5Os da guarda nĂŁo responderam: "Vistes tantos sinais naquele
homem e não acreditastes? Como ireis dar-nos crédito? E, com razão, haveis jurado pela
vida do Senhor, pois Ele também vive". E os da guarda acrescentaram: "Temos ouvido
dizer que prendestes aquele que reclamou o corpo de Jesus, selando a porta, e que ao abri-la
não o encontrastes. Entregai, pois, José e vos entregaremos Jesus".
6Os judeus disseram:
"José se foi para a sua cidade". E os da guarda replicaram: "Também Jesus ressuscitou,
como ouvimos o anjo, e estå na Galiléia".
Ao ouvir estas palavras os judeus sentiram medo e disseram: "NĂŁo deixeis que isto se
espalhe porque senĂŁo todos inclinar-se-ĂŁo diante de Jesus". E, convocado o conselho,
fizeram um depĂłsito de muito dinheiro e deram-no aos soldados, dizendo: "Dizei:
"Enquanto dormĂamos, seus discĂpulos vieram de noite e o levaram'.
7E se isto chegar aos
ouvidos do governador, persuadi-lo-emos e livrĂĄ-los-emos de toda a responsabilidade".
Eles pegaram o dinheiro e falaram da maneira que lhes havia sido indicada.
Mas um sacerdote chamado Finees, Adas, o doutor, e Ageu, levita, desceram da
Galiléia até Jerusalém e contaram aos arquissinagogos, aos sacerdotes e aos levitas: "Vimos
Jesus em companhia de seus discĂpulos sentado no monte chamado Mamilch, e dizia-lhes:
"Ide pelo mundo e pregai a todas as criaturas; aquele que crer e for batizado, salvar-se-ĂĄ;
mas aquele que nĂŁo crer, estĂĄ condenado.
8E aqueles que tiverem acreditado, estes sinais os
acompanharĂŁo: arremessarĂŁo demĂŽnios em meu nome; falarĂŁo em novas lĂnguas; colherĂŁo
serpentes; e, mesmo que beberem alguma coisa capaz de produzir a morte, nĂŁo lhes farĂĄ
dano; imporĂŁo suas mĂŁos sobre os enfermos e estes sentir-se-ĂŁo bem'.
9E, quando ainda lhes
estava falando, vimos que ia subindo ao céu".
Os anciĂŁos, os sacerdotes e os levitas disseram: "Glorificai e confessai ao Deus de
Israel se Ă© que ouvistes e vistes o que acabais de dizer". Os que haviam falado disseram: "O
Senhor Deus de nossos pais Abraão, Isaac e Jacob vive, pois que ouvimos isto e o vimos ao ser elevado ao céu".
10Os anciĂŁos, os sacerdotes e os levitas disseram: "Viestes para prestar-
nos conta de tudo isto ou para cumprir algum voto feito a Deus?" EntĂŁo os anciĂŁos, os
pontĂfices e os levitas replicaram: "Se haveis vindo para cumprir um voto a Deus, qual a
razĂŁo destas histĂłrias mentirosas que haveis contado diante de todo o povo?" Finees o
sacerdote, Adass, o doutor, e Ageu, o levita, disseram aos arquissinagogos e levitas: "Se
estes fatos que contamos, e dos quais fomos testemunhas oculares, constituem um pecado,
aqui nos tendes em vossa presença; fazei conosco o que lhes pareça bom diante de vossos
olhos".
CapĂtulo 9
1EntĂŁo eles pegaram o livro da lei e fizeram-nos jurar que nĂŁo mencionariam a
ninguém aquelas coisas. Depois deram-lhes de comer e de beber e tiraram-nos da cidade,
nĂŁo sem antes haver-lhes dado dinheiro e haver-lhes dado trĂȘs homens para que os
acompanhassem, e que deveriam levå-los até os confins da Galiléia.
2E foram-se em paz.
E depois que aqueles homens foram para a GalilĂ©ia, os pontĂfices, os arquissinagogos e
os anciĂŁos reuniram-se na sinagoga, fechando a porta atrĂĄs de si, e demonstrando grande
dor, diziam: "SerĂĄ possĂvel que este portento aconteceu em Israel?"
3EntĂŁo AnĂĄs e CaifĂĄs
disseram: "Por que estais tĂŁo agitados? Por que chorais? Ou nĂŁo sabeis que seus discĂpulos
compararam-nos com uma boa quantidade de ouro e deram-lhes instruçÔes para que digam
que um anjo do Senhor desceu e removeu a pedra da entrada do sepulcro?" Mas os
sacerdotes e anciĂŁos disseram: "Pode ser que os discĂpulos tenham roubado seu corpo, mas,
como sua alma entrou no corpo e estå vivendo na Galiléia?" E eles, na impossibilidade de
dar-lhes resposta para todas estas coisas, disseram enfim a duras penas: "A nĂłs nĂŁo nos Ă©
permitido acreditar em alguns nĂŁo circuncidados".
4Mas Nicodemus levantou-se e pÎs-se em pé diante do conselho, dizendo: "Falais
perfeitamente. Não desconheceis, ó povo do Senhor, os varÔes que desceram da Galiléia,
homens de recursos, tementes a Deus, inimigos da avareza, amigos da paz. Pois bem, eles
disseram sob juramento que viram Jesus no monte Mamilch em companhia de seus
discĂpulos, que estava ensinando todas as coisas que pudessem ouvir da sua boca e que o
viram no momento de ser elevado ao céu.
5E ninguém perguntou-lhes de que maneira foi
elevado. EntĂŁo como ensinava-nos, estava contido no livro das Sagradas Escrituras que
Elias foi elevado ao céu e que Eliseu gritou fortemente, fazendo com que Elias atirasse sua
capa sobre o Jordão, e assim Eliseu pÎde atravessar o rio e chegar até Jericó. Então os
filhos dos profetas saĂram ao seu encontro e disseram-lhe: "Eliseu, onde estĂĄ Elias, teu
senhor?' Ele respondeu que havia sido elevado ao céu. E eles disseram a Eliseu: "Serå que o
espĂrito nĂŁo o arrancou e o atirou sobre algum monte? Levamos nossos criados conosco e
partamos em sua busca'.
6E convenceram Eliseu, que foi com eles. E andaram buscando-o
durante trĂȘs dias inteiros, sem encontrĂĄ-lo, pelo que tiveram conhecimento de que havia
sido chamado. E agora dai-me atenção: enviemos uma expedição por todos os confins de
Israel e vejamos se por ventura Cristo foi chamado por um espĂrito e foi depois atirado num
desses montes". Esta proposição agradou a todos e enviaram uma expedição por todos os
confins de Israel em busca de Jesus e não o encontraram. Encontraram foi José de
ArimatĂ©ia, mas ninguĂ©m atreveu-se a detĂȘ-lo.
7E foram-se a prestar contas aos anciĂŁos e aos sacerdotes e aos levitas, dizendo: "Demos
a volta por todos os confins de Israel e não encontramos Jesus, mas encontramos sim José
de Arimatéia". Ao ouvir falar de José, os arquissinagogos, os sacerdotes e os levitas
encheram-se de alegria, deram glĂłria a Deus e puseram-se a deliberar de que maneira
poderiam entrevistar-se com José.
8E pegaram um rolo de papel e escreveram o seguinte
para José: "Que a paz esteja contigo; sabemos que pecamos contra Deus e contra ti. E
temos rogado ao Deus de Israel que permita com que venhas ao encontro de teus pais e de
teus filhos. Pois sabes que todos enchemo-nos de aflição quando, ao abrir a porta, não o
encontramos.
9E agora nos apercebemos de que havĂamos tomado uma determinação
perversa contra ti; mas o Senhor veio em tua ajuda e Ele mesmo encarregou-se de dissipar
nosso mau propósito, honoråvel pai José".
E escolheram, entre todo Israel, sete varÔes amigos de José, os quais José conhecia, e
os arquissinagogos, sacerdotes e levitas disseram-lhes: "Olhai, se ao receber nossa carta ele
a ler, sabereis que virå até nós em vossa companhia: porém, se não a ler, entendi que estå
desgostoso conosco, e, depois de dar-lhe um beijo de paz, voltai aqui".
10Em seguida,
abençoaram os emissårios e os despediram. Então estes chegaram ao lugar onde estava
JosĂ©, e fazendo-lhe uma reverĂȘncia, disseram-lhe: "A paz esteja contido". E ele por sua vez
disse: "Que a paz esteja convosco e com todo o povo de Israel". EntĂŁo eles lhe entregaram a
carta. José aceitou-a, leu-a, beijou-a e louvou a Deus, dizendo: "Bendito o Senhor Deus,
que livrou Israel de derramar sangue inocente, e bendito o Senhor que enviou seu anjo e
abrigou-me sob as suas asas".
11Depois, preparou a mesa e ali comeram, beberam e
dormiram.
No dia seguinte levantaram-se muito cedo e fizeram suas oraçÔes. Depois, José selou
sua mula e pÎs-se a caminho acompanhado daqueles homens e foram até a cidade santa de
Jerusalém. E o povo em massa saiu ao encontro de José, gritando: "Entra em paz".
12Ele disse
dirigindo-se a todo o povo: "Que a paz esteja convosco". E eles deram-lhe um beijo,
prostrando-se em oração juntamente com José. E ficaram todos fora de si por poder
contemplĂĄ-lo. Nicodemus hospedou-o em sua casa e em sua honra deu uma grande
recepção, convidando Anås, Caifås, os anciãos, os sacerdotes e os levitas.
CapĂtulo 10
1E alegraram-se
comendo e bebendo em companhia de José; e, depois de entoar hinos, cada qual foi para
sua casa. José, porém, permaneceu com Nicodemus.
Mas no dia seguinte, que era sexta-feira, os arquissinagogos, sacerdotes e levitas
madrugaram para ir Ă casa de Nicodemus. Este veio ao seu encontro e disse-lhes: "Que a
paz esteja convosco".
2E eles por sua vez disseram: "Que a paz esteja contigo e com José,
com toda a tua casa e com toda a casa de JosĂ©". EntĂŁo fĂȘ-los entrar em sua casa. O conselho
estava todo reunido, e José veio sentar-se entre Anås e Caifås. E ninguém se atreveu a
dizer-lhe uma palavra.
3Então José disse: "A quem obedece aquele que me convocou?" Eles
fizeram sinais a Nicodemus para que falasse com José. Ele então abriu sua boca e falou-lhe
assim: "Sabes que os venerĂĄveis doutores, assim como os sacerdotes e levitas, desejam
saber de ti uma coisa". E José disse: "Perguntai". Então Anås e Caifås pegaram o livro da
lei e colocaram José sob juramento dizendo: "Glorifica e confessa a Deus de Israel.
4Sabei
que Achar, ao ser conjurado pelo profeta Jesus, nĂŁo cometeu perjĂșrio, mas sim anunciou
tudo e não ocultou uma só palavra. Tu, pois, também não oculte de nós nenhuma palavra. E
José disse: "Não ocultar-vos-ei uma só palavra". Então eles lhe disseram: "Sentimos uma
grande contrariedade quanto pediste o corpo de Jesus e envolveste-o em um lençol limpo e
puseste-o no sepulcro. Por isso detivemos-te num recinto onde nĂŁo havia nenhuma janela.
5Deixamos, além disso, as portas trancadas e fechadas a chave e dois guardas ficaram
custodiando a prisão onde estavas fechado. Porém, quando fomos abrir, no primeiro dia da
semana, nĂŁo te encontramos e preocupamo-nos ao mĂĄximo e foi-se estabelecendo o espanto
sobre todo o povo de Deus até ontem. Agora, então, conta-nos o que aconteceu contigo".
6E José disse: "Na sexta-feira, à décima hora, encarcerastes-me, e ali permaneci durante
o Sabat todo. Mas à meia-noite, enquanto eu estava em pé orando, a casa onde me deixastes
fechado ficou suspensa nos quatro Ăąngulos e vi como que um relĂąmpago de luz diante dos
meus olhos.
7Amedrontei-me, então caà ao chão. Porém, alguém pegou a minha mão e
levantou-me do lugar onde estava caĂdo. Senti depois que a ĂĄgua derramava-se sobre mim
desde a cabeça até os pés e veio às minhas narinas uma fragrùncia de bålsamo. E aquela
personagem desconhecida enxugou-me o rosto, deu-me um beijo e disse-me: "NĂŁo temas,
José; abre teus olhos e olha para quem te fala'.
8EntĂŁo levantando meus olhos, vi Jesus; mas no meu estremecimento supus que era um fantasma e pus-me a recitar os mandamentos. E
ele pĂŽs-se a recitĂĄ-los junto comigo. Como sabeis muito bem, se um fantasma vem ao vosso
encontro e ouve os mandamentos, foge rapidamente. Vendo, entĂŁo, que recitava-os
juntamente comigo, disse-lhe: "Mestre Elias'. Mas ele disse-me: "NĂŁo sou Elias'.
9Eu entĂŁo
disse: "Quem sois, Senhor?' Ele disse-me: "Eu sou Jesus, aquele cujo o corpo tu pediste a
Pilatos e envolveste com um lençol limpo, e puseste um sudårio sobre a cabeça, e colocaste
em tua gruta nova, e rolaste uma grande pedra Ă sua entrada'. E eu disse ao que me falava:
"Mostrai-me o lugar onde te coloquei'.
10E ele levou-me e mostrou-me o lugar onde eu o
colocara; nele estavam estendidos o lençol e o sudårio que havia servido para seu rosto.
EntĂŁo reconheci que era Jesus. Depois ele pegou minha mĂŁo e deixou-me a portas fechadas
dentro da minha casa; em seguida, acompanhou-me até minha cama e disse-me: "Que a paz
esteja contigo'.
CapĂtulo 11
1A seguir deu-me um beijo, dizendo-me: "Até que se completem quarenta
dias não saias de tua casa; pois eis que vou até a Galiléia ao encontro de meus irmãos'."
Quando os arquissinagogos, sacerdotes e levitas ouviram estas palavras dos lĂĄbios de
JosĂ©, ficaram como mortos e caĂram ao chĂŁo. E jejuaram atĂ© a nona hora. EntĂŁo Nicodemus
e José puseram-se a animar Anås e Caifås, os sacerdotes e os levitas, dizendo: "Levantai,
ficai em pé e robustecei vossas almas, pois amanhã é o Sabat do Senhor".
2E com isto
levantaram-se, oraram a Deus, comeram, beberam e cada um voltou Ă sua casa.
No sĂĄbado seguinte, nossos doutores reuniram-se em conselho, bem como os
sacerdotes e levitas, discutindo entre si e dizendo: "Que serĂĄ esta cĂłlera que se formou
sobre nĂłs? Porque, de nossa parte, conhecemos bem seu pai e sua mĂŁe". EntĂŁo, Levi o
doutor disse: "Conheço seus pais e sei que são tementes a Deus, que não descuidam de seus
votos e que trĂȘs vezes por ano dĂŁo seus dĂzimos. Quando Jesus nasceu, trouxeram-no a este
lugar e ofereceram a Deus sacrifĂcios e holocaustos.
3E o grande doutor SimeĂŁo, ao tomĂĄ-lo
em seus braços, disse: "Agora despeça o teu servo em paz, Senhor, segundo tua palavra;
pois meus olhos viram tua salvação, que preparaste para a face de todos os povos; luz para
a revelação dos gentios e glória do teu povo de Israel'. E Simeão abençoou-os e disse a
Maria, sua mãe: "Dou-te boas novas com relação a este menino'.
4Maria disse: "Boas,
senhor?' E Simeão respondeu: "Boas; olha, este foi colocado para a queda e ressurreição de
muitos em Israel e para seu um sinal de contradição. Tua própria alma serå atravessada por
uma espada de forma que os pensamentos de muitos fiquem a descoberto'."
EntĂŁo disseram a Levi o doutor: "Como sabes tu disto?" Ele respondeu: "NĂŁo sabeis
que aprendi a lei dos seus lĂĄbios?" Os do conselho disseram: "Queremos ver teu pai".
5E fizeram com que o pai de Levi fosse chamado. E, quando o interrogaram, ele respondeu:
"Por que nĂŁo acreditastes em meu filho? O bem-aventurado e justo SimeĂŁo em pessoa
ensinou-lhe a lei". E o conselho disse-lhe: "Mestre Levi, Ă© verdade o que disseste?" Ele
respondeu: "Ă verdade". E os arquissinagogos, sacerdotes e levitas disseram entre si: "Eia!
Enviemos Ă GalilĂ©ia os trĂȘs homens que vieram trazer ao nosso conhecimento sua doutrina
e sua ascensĂŁo, e que nos digam de que maneira viram-no elevar-se".
6E esta proposição
agradou a todos. Enviaram, pois, os trĂȘs homens que os haviam acompanhado
anteriormente atĂ© a GalilĂ©ia com essa incumbĂȘncia: "Dizei ao mestre Adas, ao mestre
Finees e ao mestre Ageu: "Que a paz esteja convosco e com os que estĂŁo em vossa
companhia'. Tendo havido uma grande discussĂŁo neste conselho, viemos para levar-vos a
este lugar santo de Jerusalém".
7Puseram-se, pois, os homens a caminho da Galiléia e os encontraram sentados e
absortos com o estudo da lei. Deram-lhe um abraço de paz. Então disseram os varÔes
galileus a quem havia ido buscar: "Que a paz esteja convosco". E aqueles disseram de
novo: "A que viestes?" Os enviados responderam: "Chama-vos os conselho da santa cidade
de Jerusalém".
8Quando aqueles homens ouviram que eram procurados pelo conselho,
fizeram oraçÔes a Deus, sentaram-se à mesa com os enviados, comeram, beberam,
levantaram-se e puseram-se tranqĂŒilamente a caminho de JerusalĂ©m.
No dia seguinte, o conselho reuniu-se na sinagoga e os interrogaram dizendo: "Ă
verdade que vistes Jesus sentado no monte Mamilch dando instruçÔes aos seus onze
discĂpulos e que presenciastes sua ascensĂŁo?" E os homens responderam desta maneira:
"Da mesma maneira que o vimos ao ser elevado, assim vos contamos".
9Então Anås disse: "Separemo-los uns dos outros e vejamos se suas declaraçÔes
coincidem". E foram separados. Depois, em primeiro lugar, chamaram Adas e lhe disseram:
"Mestre, como contemplaste a ascensĂŁo de Jesus?" Adas respondeu: "Enquanto ainda
estava sentado no monte Mamilch e dava instruçÔes aos seus discĂpulos, vimos uma nuvem
que cobriu a todos com sua sombra; depois, a mesma nuvem elevou Jesus até o céu,
enquanto que os discĂpulos jaziam com suas faces na terra".
10Em seguida chamaram a
Finees, sacerdote, e perguntaram-lhe também: "Como contemplaste a ascensão de Jesus?"
E ele falou de maneira semelhante. Interrogaram também a Ageu, que respondeu de
maneira semelhante. Então ele disse ao conselho: "Estå contido na lei de Moisés: "Da boca
de dois ou trĂȘs toda a palavra serĂĄ firme'.
11E o mestre Buthem acrescentou: "EstĂĄ escrito na
lei: "E passeava Enoch com Deus, e jå não existe, porque Deus levou-o consigo'." Também
o mestre Jairo disse: "Também ouvimos falar da morte de Moisés, mas não o vimos, pois
estå escrito na lei do Senhor: "E Moisés morreu pela palavra do Senhor e ninguém jamais
conheceu, até o dia de hoje, seu sepulcro'.
12E o mestre Levi disse: "E o que significa o
testemunho que o mestre SimeĂŁo deu quando viu Jesus: "Eis aqui que este estĂĄ colocado
para a queda e ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição'?" E o mestre
Isaac disse: "EstĂĄ escrito na lei: "Eis aqui que eu envio meu mensageiro diante de ti, o qual
preceder-te-ĂĄ para guardar-te em todo o bom caminho, pois meu nome Ă© nele invocado'."
Então Anås e Caifås disseram: "Haveis citado justamente o escrito na lei de Moisés,
que ninguém viu a morte de Enoch e que ninguém mencionou a morte de Moisés.
CapĂtulo 12
1Mas Jesus falou a Pilatos, e nĂłs sabemos que o vimos receber bofetadas e cusparadas no rosto;
que os soldados cingiram-lhe uma coroa de espinhos; que foi flagelado; que recebeu
sentença da parte de Pilatos; que foi crucificado no Calvårio em companhia de dois ladrÔes;
que se lhe deu de beber fel e vinagre; que o centuriĂŁo Longinos abriu seu flanco com uma
lança; que José, nosso honoråvel pai, pediu seu corpo e que, como disse, ressuscitou; que,
como dizem os trĂȘs mestres, viram-no elevar-se ao cĂ©u; e, finalmente, que o mestre Levi
deu testemunho do que o mestre SimeĂŁo disse, e que disse: "Eis aqui este que estĂĄ colocado
para a queda e ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição'.
2E todos os
doutores disseram em unĂssono ao povo inteiro de Israel: "Se esta ira provĂ©m do Senhor e Ă©
admirĂĄvel aos nossos olhos, conhecei sem dar margem a dĂșvidas, Ăł casa de Israel, que estĂĄ
escrito: "Maldito todo aquele que estå preso a um pedaço de madeira'. E outro lugar da
escritura menciona: "Deuses que não fizeram o céu e a terra perecerão'.
3E os sacerdotes e
levitas disseram entre si: "Se sua memória perdurar até Sommos (também conhecido pelo
nome de Jobel), sabei que o seu domĂnio serĂĄ eterno e que farĂĄ nascer para si um novo
povo". EntĂŁo os arquissinagogos, sacerdotes e levitas exortaram todo o povo de Israel
dizendo: "Maldito aquele que adorar qualquer obra saĂda de mĂŁos humanas e maldito
aquele que adorar as criaturas tendo ao lado o Criador".
4E o povo em massa respondeu:
"Amém, amém". Depois a multidão entoou um hino ao Senhor desta forma: "Bendito o Senhor, que
proporcionou descanso ao povo de Israel de acordo com o que havia prometido; nĂŁo caiu
no vazio nem uma só de todas as boas coisas que disse ao seu servo Moisés.
5Que siga ao nosso lado o Senhor nosso Deus da mesma maneira que estava do lado dos nossos pais.
Que não nos entregue à perdição para que possamos inclinar nosso coração até Ele, para
que possamos seguir todos os seus caminhos e para que possamos praticar os preceitos e
critérios que apregoou aos nossos pais.
6Naquele dia o Senhor serĂĄ rei sobre toda a terra; nĂŁo
haverĂĄ outro ao seu lado; seu nome serĂĄ unicamente Senhor, nosso rei. Ele nos salvarĂĄ.
NĂŁo hĂĄ semelhante a ti, Senhor; sois grande, Senhor, e grande o teu nome. Cura-nos pela
tua virtude e seremos curados; salva-nos, Senhor, e seremos salvos, pois somos tua pequena
parte e tua herança.
7O Senhor nĂŁo abandonarĂĄ jamais o seu povo pela magnitude do seu
nome, pois começou a fazer de nós o seu povo.
E todos depois, em coro, cantaram o hino e cada qual foi para casa dando graças a
Deus, porque aquele dia permanece por todos os séculos dos séculos. Amém.
CapĂtulo 13
DESCIDA DE CRISTO AO INFERNO
1Dois textos apĂłcrifos constituem o Evangelho de Nicodemus: Atos de Pilatos e Descida
de Cristo ao Inferno. Em Ă© seqĂŒĂȘncia do outro e o completa, embora escritos em Ă©pocas
diferentes. Justino, em 150, menciona em seus escritos um texto chamado Atos de PĂŽncio
Pilatos, narrando os acontecimentos posteriores à Crucificação.
2Então José disse: "E por que vos admirai de que Jesus tenha ressuscitado? O admiråvel
não é isto; o admiråvel é que não somente ele ressuscitou, como também devolveu a vida a
um grande nĂșmero de mortos, que hĂĄ muito nĂŁo sĂŁo vistos em JerusalĂ©m. E se nĂŁo
conheceis os outros, conheceis sim, pelo menos, SimeĂŁo, aquele que tomou Jesus nos
braços, assim como também seus dois filhos, que igualmente foram ressuscitados.
3Pois a esses, hĂĄ pouco tempo, nĂłs mesmos demos sepultura, e agora podem contemplar seus
sepulcros abertos e vazios, e estão vivos e morando em Arimatéia". Enviaram, então,
algumas pessoas e comprovaram que os sepulcros estavam abertos e vazios. José então
disse: "Vamos a Arimatéia e veremos se os encontramos".
E levantando-se os pontĂfices AnĂĄs, CaifĂĄs, JosĂ©, Nicodemus, Gamaliel, e outros em
sua companhia, foram até Arimatéia onde encontraram aqueles a quem José se havia
referido. Fizeram, então, oraçÔes e abraçaram-se mutuamente.
4Depois regressaram a
Jerusalém em sua companhia e os levaram até a sinagoga. E, ali postos, fecharam as portas,
colocaram o Antigo Testamento dos judeus no cento e os pontĂfices disseram-lhes:
"Queremos que jureis pelo Deus de Israel e por Adonai, para que assim digais a verdade, de
como haveis ressuscitado e quem Ă© aquele que vos tirou de entre os mortos".
5Quando os ressuscitados ouviram isto, fizeram sobre suas faces o sinal da cruz e
disseram aos pontĂfices: "Dai-nos papel, tinta e pena". Trouxeram-lhes e, sentando-se,
escreveram da seguinte maneira:
Oh, Senhor Jesus Cristo, ressurreição e vida do mundo! Dai-nos a graça para fazermos
o relato da tua ressurreição e das maravilhas que fizeste no Inferno.
6NĂłs estĂĄvamos, entĂŁo,
no Inferno em companhia de todos os que haviam morrido desde o princĂpio. E na hora da
meia-noite amanheceu naquelas trevas, algo assim como a luz do sol, e com o seu brilho
fomos todos iluminados e pudemos ver-nos uns aos outros. E ao mesmo tempo o nosso pai
AbraĂŁo, os patriarcas e profetas e todos em unĂssono regozijaram-se e disseram entre si:
"Esta luz provém de um grande resplendor".
7EntĂŁo o profeta IsaĂas, ali presente, disse:
"Esta luz provĂ©m do Pai, do Filho e do EspĂrito Santo; sobre ela ou profetizei, quando ainda
estava na terra, desta maneira: "Terra de AbulĂŁo e terra de Neftali, o povo que estava
sumido nas trevas viu uma grande luz'.
8Depois surgiu do meio um asceta do deserto, e os patriarcas perguntaram-lhe: "Quem
sois?" Ele respondeu: "Eu sou JoĂŁo, o Ășltimo dos profetas, aquele que preparou os
caminhos do Filho de Deus e pregou a penitĂȘncia ao povo para remissĂŁo dos pecados. O
Filho de Deus veio ao meu encontro e, ao vĂȘ-lo de longe, disse ao povo: "Eis aqui o
cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo'.
9E com minha prĂłpria mĂŁo batizei-o no rio JordĂŁo e vi o EspĂrito Santo em forma de pomba que descia sobre ele. E ouvi
também a voz de Deus Pai, que assim dizia: "Este é meu Filho, o amado, o que me agrada'.
E por isso mesmo também enviou-me a vós para anunciar-vos a chegada do Filho de Deus
unigĂȘnito a este lugar, a fim de que aquele que acreditar nele seja salvo, e quem nĂŁo
acreditar, seja condenado.
10Por isto recomendo a todos que, enquanto o virdes, adoreis
somente a ele, porque esta Ă© a Ășnica oportunidade de que dispondes para fazer penitĂȘncia
pelo culto que rendestes aos Ădolos enquanto vivĂeis no mundo vil de antes e pelos pecados
que cometestes; isto jĂĄ nĂŁo poderĂĄ ser feito em outra ocasiĂŁo.
Ao ouvir o primeiro a ser criado e pai de todos a instrução que João estava dando aos
que se encontravam no inferno, disse AdĂŁo ao seu filho Seth:
11"Meu filho, quero que digas
aos pais do gĂȘnero humano e aos profetas para onde eu o enviei quando caĂ no transe da
morte". Seth disse: "Profetas e patriarcas, escutai: meu pai AdĂŁo, a primeira das criaturas,
caiu uma vez em perigo de morte e enviou-me para fazer oraçÔes a Deus muito próximo da
porta do paraĂso, para que me fizesse chegar por meio de um anjo atĂ© a ĂĄrvore da
misericĂłrdia, de onde haveria de tomar do Ăłleo, para com ele ungir meu pai para que assim
ele pudesse recuperar-se de sua doença. Assim fiz.
12E, depois de fazer minha oração, um
anjo do Senhor veio e disse-me: "Que pedes, Seth? Buscas o Ăłleo que cura os doentes ou a
årvore que o distila para a doença do teu pai? Isto não pode ser encontrado agora. Vai, pois,
e diz ao teu pai que depois de cinco mil e quinhentos anos, a partir da criação do mundo,
haverĂĄ de descer o Filho de Deus humanizado; Ele encarregar-se-ĂĄ de ungi-lo com este
óleo, e teu pai levantar-se-å; e, além disso, purificå-lo-å, tanto a ele quanto aos seus
descendentes com ĂĄgua e com o EspĂrito Santo; e entĂŁo, sim, ver-se-ĂĄ curado de todas as
doenças, porĂ©m, por agora, isto Ă© impossĂvel'."
13Os patriarcas e profetas que ouviram isto alegraram-se grandemente.
E, enquanto estavam todos se regozijando desta forma, SatanĂĄs, o herdeiro das trevas,
veio e disse ao Inferno: "Ăł tu, devorador insaciĂĄvel de todos, ouve minhas palavras: anda
por aĂ um certo judeu, de nome Jesus, que chama-se a si mesmo Filho de Deus; mas, como
é um homem puro, os judeus deram-lhe a morte na cruz, graças à nossa cooperação. Agora,
entĂŁo, que acaba de morrer, estejas preparado para que possamos colocĂĄ-lo aqui bem
aprisionado; pois eu sei que não é mais do que um homem, e ouvi-o até dizer: "Minh'alma
estĂĄ triste por causa da morte'.
CapĂtulo 14
1Sabes, além disso, que ele me causou muitos danos no
mundo enquanto vivia entre os mortais, pois aonde quer que eu encontrasse meus servos,
ele os perseguia; e todos os homens que eu deixava mutilados, cegos, coxos, leprosos ou
algo semelhante, ele os curava somente com sua palavra; até muitos deles para os quais eu
jĂĄ havia preparado sepultura, ele fazia reviver somente com sua palavra".
2EntĂŁo disse o Inferno: "E Ă© ele tĂŁo poderoso assim que pode fazer tais coisas somente
com sua palavra? E, sendo ele assim, tu porventura te atreves a enfrentĂĄ-lo? Eu creio que
diante de alguĂ©m como ele, ninguĂ©m poderĂĄ opor-se. E o que disseste tĂȘ-lo ouvido
exclamar, expressando seu temor diante da morte, disse-o sem dĂșvida, para rir-se de ti e
enganar-te, para poder desafiar-te com seu poder.
3E entĂŁo, ai! ai de ti por toda a
eternidade!" Ao que SatanĂĄs respondeu: "Ăł Inferno, devorador insaciĂĄvel de todos! Sentiste
tanto medo assim ao ouvir falar de nosso inimigo comum? Eu nunca lhe tive medo, e bem
que aticei os judeus, e eles o crucificaram e deram-lhe de beber fel com vinagre.
4Prepara-te, entĂŁo, para que quando venha possa subjugĂĄ-lo firmemente".
O Inferno respondeu: "Herdeiro das trevas, filho da perdição, caluniador, acabas de
dizer-me que ele fazia reviver somente com sua palavra a muitos dos que tu havia
preparado para a sepultura; se, pois, ele livrou outros do sepulcro, como e com que forças
nĂłs seremos capazes de subjugĂĄ-lo? HĂĄ pouco tempo devorei um cadĂĄver chamado LĂĄzaro;
porém, pouco depois, um dos vivos, somente com sua palavra, arrancou-o à força das minhas entranhas.
5E penso que ele Ă© o mesmo ao qual tu te referes. Se, pois, viermos a
recebĂȘ-lo aqui, tenho medo de que corramos perigo tambĂ©m com relação aos demais porque
deves saber que vejo agitados todos os que devorei desde o princĂpio, e sinto dores na
minha barriga. E LĂĄzaro, aquele que me foi arrebatado anteriormente, nĂŁo Ă© um bom
pressĂĄgio, pois voou para longe de mim, nĂŁo como um morto mas sim como uma ĂĄguia:
tĂŁo rapidamente arremessou-o fora da terra.
6Assim, pois, conjuro-te por tuas artes e pelas
minhas, nĂŁo o tragas aqui. Tenho para mim que o fato de ele ter-se apresentado em nossa
mansĂŁo quer dizer que todos os mortos cometeram pecado. E considera que, pelas trevas
que possuĂmos, se o trouxeres aqui, nĂŁo me restarĂĄ nem um sĂł dos mortos".
7Enquanto SatanĂĄs e o Inferno diziam tais coisas entre si, produziu-se uma grande voz
como um trovĂŁo, que dizia: "Elevai, Ăł prĂncipes, vossas portas; descerrai, Ăł portas eternas, e
o Rei da Glória entrarå". Quando o Inferno ouviu isto, disse a Satanås: "Sai, se és capaz, e
enfrenta-o". E SatanĂĄs saiu. Depois o Inferno disse para seus demĂŽnios: "Trancai bem e
fortemente as portas de bronze e os ferrolhos de ferro; guardai minhas fechaduras e
examinai tudo o que estå em pé, pois, se aquele entrar aqui, ai! apoderar-se-å de nós".
8Os pais que ouviram isto começaram a fazer-lhe zombarias dizendo: "Comilão
insaciĂĄvel, abre para que o Rei da GlĂłria entre". E o profeta Davi disse: "NĂŁo sabes, cego,
que estando eu ainda no mundo, fiz esta profecia: "Elevai, Ăł prĂncipes, vossas portas!?'"
IsaĂas por sua vez disse: "Eu, prevendo isto pela virtude do EspĂrito Santo, escrevi: "Os
mortos ressuscitarĂŁo e os que estĂŁo no sepulcro levantar-se-ĂŁo e os que vivem na terra
alegrar-se-ão'; e onde estão, ó morte, teus grilhÔes? Aonde, Inferno, a tua vitória?"
EntĂŁo, de novo veio uma voz que dizia: "Levantai as portas". O Inferno, que ouviu
repetir esta voz, disse como se nĂŁo se apercebesse: "Quem Ă© este Rei da GlĂłria?" E os anjos
do Senhor responderam: "O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha".
9E num instante, à convocação de conjuração desta voz, as portas de bronze se tornaram
pequeninas e os ferrolhos de ferro ficaram reduzidos a pedaços, e todos os defuntos
acorrentados viram-se livres de suas correntes, e nĂłs dentre eles. E entrou o Rei da GlĂłria
na figura humana, e todos os antros escuros de Inferno foram iluminados.
10Em seguida o Inferno começou a gritar: "Fomos vencidos, ai de nós! Mas quem és tu,
que possuis tal poder e força? Quem és tu, que vens aqui sem pecado? Aquele que é
pequeno na aparĂȘncia e pode grandes coisas, o humilde e o excelso, o servo e o senhor, o
soldado e o rei, aquele que tem poder sobre os vivos e os mortos? Foste pregado Ă cruz e
colocado no sepulcro, e agora ficaste livre e desfizeste nossa força.
11EntĂŁo, por conseguinte, Ă© tu Jesus, de quem nos falava o grande sĂĄtrapa SatanĂĄs, que pela cruz e pela morte tornar-
te-ias dono de todo o mundo?"
EntĂŁo o Inferno encarregou-se de SatanĂĄs e disse-lhe: "Belzebu, herdeiro do fogo e da
tempestade, inimigo dos santos, que necessidade tinhas de providenciar para que o Rei da
GlĂłria fosse crucificado e que viesse depois aqui e nos despojasse? Vira-te e olha que em
mim nĂŁo ficou nenhum morto, pois que tudo o que ganhaste pela ĂĄrvore da ciĂȘncia puseste
a perder pela cruz.
12Todo o teu gozo converteu-se em tristeza, e a pretensĂŁo de matar o Rei
da Glória provocou tua própria morte. E, uma vez que te recebi com a recomendação de
subjugar-te fortemente, aprenderĂĄs com a prĂłpria experiĂȘncia quanto mal sou capaz de
infligir-te. Ă chefe dos diabos, princĂpio da morte, raiz do pecado, final de toda a maldade,
que encontraste de mal em Jesus para buscar sua perdição? Como tiveste coragem para
perpetrar um crime tão grande? Por que te ocorreu fazer um varão como este descer até
estas trevas, pois as despojou de todos os que morreram desde o princĂpio?"
Enquanto o Inferno admoestava assim SatanĂĄs, o Rei da GlĂłria estendeu sua mĂŁo direita e com ela pegou e levantou o primeiro pai AdĂŁo.
CapĂtulo 15
1Depois dirigiu-se aos demais e
disse-lhes: "Vinde aqui comigo todos os que foram feridos de morte pelo madeiro que me
tocou, pois eis aqui que eu vos ressuscito pela madeira da cruz". E com isto levou todos
para fora. E o primeiro pai Adão apareceu transbordante de gozo e dizia: "Agradeço,
Senhor, tua magnanimidade por me haveres tirado do mais profundo Inferno".
2E também todos os profetas e santos disseram: "Damos-te graças, ó Cristo Salvador do mundo, porque
tiraste nossa vida da corrupção".
Depois de assim haverem falado, o Salvador abençoou Adão na testa com o sinal da
cruz. Depois fez a mesma coisa com os patriarcas, profetas, mĂĄrtires e progenitores.
3E a seguir pegou-os a todos e deu um salto do Inferno. E enquanto ele caminhava, os santos
pais seguiam-no cantando e dizendo: "Bendito aquele que vem em nome do Senhor.
Aleluia! Sejam para ele os louvores de todos os santos".
Ia, entĂŁo, a caminho do paraĂso levando pela mĂŁo o primeiro pai AdĂŁo.
4E ao chegar, entregou-o, assim como os demais justos, ao arcanjo Micael. E quando entraram pela porta
do paraĂso, saĂram dois anciĂŁos, aos quais os santos pais perguntaram: "Quem sois vĂłs, que
nĂŁo viestes a morte nem descestes ao Inferno, mas viveis de corpo e alma no paraĂso?" Um
deles respondeu e disse: "Eu sou Enoch, aquele que agradou ao Senhor e foi trazido aqui
por Ele; este é Elias e Tesbita; ambos seguiremos vivendo até a consumação dos séculos;
entĂŁo seremos enviados por Deus para enfrentar o anticristo e ser mortos por ele, e
ressuscitar no terceiro dia, para depois sermos arrebatados pelas nuvens ao encontro do
Senhor".
5Enquanto eles assim se expressavam, veio outro homem de aparĂȘncia humilde, que
levava ainda sobre os seus ombros uma cruz. Os santos pais disseram-lhe: "Quem és tu, que
tens o aspecto de ladrĂŁo, e que Ă© essa cruz que leva sobre teus ombros?" Ele respondeu:
"Eu, segundo dizes, era ladrĂŁo e assaltante no mundo e por isso os judeus prenderam-me e
entregaram-me Ă morte na cruz juntamente com Nosso Senhor Jesus Cristo.
6E enquanto ele
pendia na cruz, ao ver os prodĂgios que se sucederam, acreditei e roguei a ele dizendo:
"Senhor, quando reinares, não te esqueças de mim'. E ele logo disse-me: "Em verdade em
verdade te digo, hoje mesmo estarĂĄs comigo no paraĂso'. Vim, pois, com minha cruz nas
costas atĂ© o paraĂso e, encontrando o arcanjo Micael, disse-lhe: Nosso Senhor Jesus, aquele
que foi crucificado, enviou-me aqui; leva-me, entĂŁo, atĂ© a porta do Ăden'.
7E quando a espada de fogo viu o sinal da cruz, abriu-me a porta e entrei. Depois o arcanjo disse-me:
"Espera um momento, jå que também deve ir o primeiro pai da raça humana, Adão, em
companhia dos justos, para que eles tambĂ©m entrem. E agora, ao vĂȘ-los, saĂ ao vosso
encontro'."
8Quando os santos ouviram isto, exclamaram em voz alta da seguinte maneira: "Grande
Ă© o nosso Senhor e grande Ă© o seu poder".
Tudo isto nĂłs vimos e ouvimos, os dois irmĂŁos gĂȘmeos, que fomos tambĂ©m enviados
pelo arcanjo Micael e designados para pregar a ressurreição do Senhor antes de ir até o
JordĂŁo e sermos batizados. Para ali fomos e fomos batizados juntamente com outros
defuntos também ressuscitados; depois viemos a Jerusalém e celebramos a Påscoa da
ressurreição.
9Mas agora, na impossibilidade de permanecermos aqui, vamo-nos. Que a
caridade, então, de Deus Pai e a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e a comunicação dos
EspĂrito Santo estejam convosco". E, uma vez isto escrito e fechados os livros, deram a
metade aos pontĂfices e a outra metade a JosĂ© e a Nicodemus. Eles, por sua vez,
desapareceram imediatamente para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
10EntĂŁo os mestres Addas, Finnes e Ăgias, trĂȘs varĂ”es que vieram da GalilĂ©ia para
testemunhar que haviam visto Jesus ser arrebatado ao cĂ©u, levantaram-se em meio Ă
multidão de chefes dos judeus e disseram na presença dos sacerdotes e levitas reunidos em
conselho: "Senhores, quando Ăamos da GalilĂ©ia ao JordĂŁo, veio ao nosso encontro uma
grande multidĂŁo de homens vestidos de branco que haviam morrido jĂĄ hĂĄ algum tempo.
11Dentre eles reconhecemos Karino e LĂȘucio; e quanto eles se aproximaram de nĂłs e nos
beijamos mutuamente, jĂĄ que haviam sido nossos amigos, perguntamo-lhes: "Dizei-nos,
irmĂŁos e amigos, que sĂŁo esta alma e este corpo, e quem sĂŁo essas pessoas com quem
caminhais, e como viveis no corpo, sendo que jĂĄ faz tempo que morrestes?"
CapĂtulo 16
1Eles responderam desta maneira: "Ressuscitamos dos infernos com Cristo e Ele tirou-
nos de entre os mortos. E saibas que a partir de agora ficam destruĂdas as portas da morte e das trevas, e as almas dos santos foram tiradas dali e subiram ao cĂ©u com Cristo Senhor
Nosso.
2O Senhor em pessoa mandou-nos que, durante um certo tempo vagĂĄssemos pelas
margens do JordĂŁo e pelos montes, entretanto sem que nos deixĂĄssemos ver e sem que
falåssemos com ninguém, mas somente com aqueles que ele permitisse. Neste momento,
nĂŁo nos seria possĂvel nem falar nem nos deixar ver por vĂłs se nĂŁo nos tivesse sido
permitido pelo EspĂrito Santo".
3Diante destas palavras, a multidĂŁo que assistia ao conselho ficou assustada, presa de
temor e de tremor, e dizia: "Por ventura serĂĄ verdade o que estes dois galileus
testemunham?" EntĂŁo AnĂĄs e CaifĂĄs dirigiram-se ao conselho nestes termos: "Descobrir-se-
ĂĄ imediatamente o que estĂĄ relacionado com todas estas coisas de que estes deram
testemunho antes e depois: se se comprovar ser verdade que Karino e LĂȘucio permanecem
vivos em seus corpos, e se nos for permitido vĂȘ-los com nossos prĂłprios olhos, significa
que Ă© verdade o que eles testemunham com todos os detalhes, e, quando os encontrarmos,
informar-nos-ão com certeza de tudo. Caso contrårio, porém, sabei que tudo é pura farsa".
4Puseram-se, entĂŁo, a deliberar e concordaram em escolher alguns homens idĂŽneos e
tementes a Deus, que os sabiam mortos e os conheciam a sepultura em que haviam sido
colocados, para que fizessem diligentes pesquisas e comprovassem se aquilo era, na
verdade, tal como haviam dito. Assim, pois, foram lĂĄ quinze homens que haviam
presenciado a sua morte e haviam estado pessoalmente no lugar da sepultura, e haviam
visto seus sepulcros.
5Examinaram, entĂŁo, e os encontraram abertos, bem como outros
tantos, sem que pudessem ver sinais de seus ossos ou de suas cinzas. E voltaram com
grande surpresa, relatando o que haviam visto.
EntĂŁo a sinagoga inteira turbou-se, cheia de uma angĂșstia terrĂvel, e disseram entre si:
"Que haveremos de fazer?" AnĂĄs e CaifĂĄs disseram: "Dirigimo-nos ao lugar onde eles
estão, e enviemos até eles homens de nobreza, intercessores que lhes supliquem que se
dignem vir a nĂłs".
6Enviaram, entĂŁo, Nicodemus, JosĂ© e os trĂȘs mestres galileus que os
haviam visto, com o pedido de que fizessem a gentileza de vir até eles. Puseram-se, então, a
caminho e andaram por todos os arredores de JordĂŁo e dos montes. Mas, nĂŁo os tendo
encontrado, jĂĄ estavam tomando o caminho de volta.
Quando, de repente, avistaram uma grande multidĂŁo, como de uns doze mil homens
que haviam ressuscitado com o Senhor e que desciam do monte Amalech.
7Eles reconheceram muitos deles, porém não foram capazes de dirigir-lhes uma só palavra, com
medo da visĂŁo angĂ©lica, e contentaram-se em vĂȘ-los de longe e ouvi-los cantando hinos e dizendo: "O Senhor ressuscitou de entre os mortos, como havia dito; alegremo-nos e
regozijemo-nos todos, porque ele reina eternamente". EntĂŁo os que foram buscĂĄ-los ficaram
mudos de admiração e receberam deles o conselho de ir procurar Karino e LĂȘucio em suas
prĂłprias casas.
8Levantaram-se, entĂŁo, e foram buscĂĄ-los em suas casas, onde os encontraram
entregues Ă oração. E, entrando no lugar em que estavam, caĂram com os rostos por terra e
assim que se cumprimentaram, levantaram-se e disseram: "Amigos de Deus, ao ouvir que
havĂeis ressuscitado de entre os mortos, a assemblĂ©ia dos judeus enviou-nos a vĂłs para
pedir-vos encarecidamente que vos dirijais até eles, para que possamos juntos conhecer as
maravilhas divinas que tiveram lugar Ă nossa volta em nossos tempos".
9Eles então levantaram-se imediatamente, movidos pela inspiração divina, e, em sua companhia,
entraram na sinagoga. E a assembléia dos judeus, juntamente com os sacerdotes, passaram
Ă s suas mĂŁos os livros da lei e os conjuraram pelo Deus Heloi e Deus Adonai e pela lei e
pelos profetas desta maneira: "Dizei-nos como haveis ressuscitado de entre os mortos e o
que sĂŁo estas maravilhas que tiveram lugar em nossos tempos, maravilhas de que jamais
ouvimos falar em qualquer outro tempo. Sabei, então, que o pavor e a estupefação
atingiram nossos ossos e que a terra moveu-se sob nossos pés, por havermos juntado nossa
vontade para derramar sangue justo e santo".
10EntĂŁo, Karino e LĂȘucio fizeram-lhes sinais com as mĂŁos para que lhes descem um rolo
de papel e tinta. E assim o fizeram porque o EspĂrito Santo nĂŁo lhes permitiu falar com eles.
Deram a cada um papel e os separaram em diferentes salas. E eles entĂŁo, depois de fazerem
o sinal da cruz com os dedos, começaram a escrever cada um seu próprio rolo. E, quando
terminaram, exclamaram a uma só voz, de suas salas: "Amém".
CapĂtulo 17
1Em seguida Karino levantou-se e deu seu papel para AnĂĄs, enquanto que LĂȘucio fez o mesmo com CaifĂĄs. E
depois de se despedirem, saĂram e voltaram aos seus sepulcros.
Então, Anås e Caifås abriram cada um o seu volume e começaram a ler em segredo. O
povo, porĂ©m, sentindo-se ofendido, exclamou em unĂssono: "Lede esses escritos em voz
alta, e, depois, haveremos de conservĂĄ-los para que a verdade divina nĂŁo venha a ser
adulterada por indivĂduos imundos e ardilosos, levados pela obsessĂŁo".
2EntĂŁo AnĂĄs e CaifĂĄs, cheios de tremor, entregaram o rolo de papel ao mestre Addas, ao mestre Finees e
ao mestre Ăgias, que haviam vindo da GalilĂ©ia com a notĂcia de que Jesus havia sido
elevado ao céu; e todo o povo confiou neles para que lessem este escrito. E leram o papel,
que continha o seguinte:
3"Senhor Jesus Cristo, permite que eu, Karino, exponha as maravilhas que operaste nos
Infernos. Enquanto nĂłs nos encontrĂĄvamos presos nos Infernos, desaparecidos nas trevas e
nas sombras da morte, vimo-nos de repente iluminados por uma grande luz e o Inferno e as
portas da morte estremeceram. EntĂŁo fez-se ouvir a voz do Filho do AltĂssimo, como se
fosse a voz de um grande trovĂŁo que, dando um forte brado, disse: "Deixai que se abram, Ăł
prĂncipes, vossas portas; descerrai as portas da eternidade, pois sabeis que Cristo Senhor,
Rei da GlĂłria, virĂĄ para entrar.
4"EntĂŁo SatanĂĄs, o prĂncipe da morte, ouvindo o brado, fugiu aterrorizado para dizer aos
seus subordinados e aos Infernos: "Meus ministros e todos os Infernos, vinde todos aqui,
fechai vossas portas, colocai os ferrolhos, lutai com denodo e resisti, não aconteça que,
sendo donos das correntes, venhamos a ficar presos nelas'.
5EntĂŁo, todos os seus Ămpios
satélites, perturbados, puseram-se apressadamente a fechar as portas da morte, a verificar as
fechaduras e os ferrolhos, e a empunhar com firmeza todas as suas armas, e a lamentar com
voz sinistra e horripilante.
6"Então Satanås disse ao Inferno: "Prepara-te para receber alguém que vou trazer-te'.
Mas o Inferno assim respondeu a SatanĂĄs: "Esta voz nĂŁo foi outra coisa senĂŁo o brado do
Filho do Pai AltĂssimo, pois diante das suas palavras a terra e os lugares do Inferno
entraram em comoção; penso que tanto eu quanto minhas ligaçÔes ficaram agora patentes e
a descoberto.
7Mas afirmo-te, ó Satanås, cabeça de todos os males, por tua força e pela
minha, que nĂŁo o tragas a mim, a nĂŁo ser que, querendo pegĂĄ-lo, venhamos nĂłs a ser presos
por ele. Pois se somente com sua voz minha fortaleza ficou de tal forma desfeita, que fazer
quando estiver em sua presença?'
"Por sua vez, SatanĂĄs, o prĂncipe da morte, assim respondeu: "Por que gritas? NĂŁo
tenhas medo, perversĂssimo amigo de outrora, porque fui eu quem incitou o povo judeu
contra ele e graças a mim foi ferido com bofetadas, e eu perpetrei sua traição através de um
dos seus.
8Além disso, é um homem muito temeroso diante da morte, posto que, deixando-se
oprimir pela força do temor, disse: "Minh'alma estå triste até a morte'. E eu mesmo trouxe
até ela, jå que agora estå dependurado na cruz'.
"EntĂŁo o Inferno lhe disse: "Se Ă© ele quem somente com o poder do seu verbo fez
LĂĄzaro voar das minhas entranhas como uma ĂĄguia, morto jĂĄ hĂĄ quatro dias, esse nĂŁo Ă© um
homem na sua humanidade, mas sim Deus na sua majestade. Suplico-te, entĂŁo, que nĂŁo mo
tragas aqui'.
9SatanĂĄs contestou: "Entretanto, prepara-te; nĂŁo tenhas medo. Agora que jĂĄ estĂĄ
dependurado na cruz, nĂŁo posso fazer outra coisa'. EntĂŁo o Inferno respondeu a SatanĂĄs da
seguinte maneira: "Se, então, não és capaz de fazer outra coisa, tua perdição estå perto. Em
Ășltima instĂąncia, eu ficarei, sim, abatido e sem honra, mas tu serĂĄs crucificado sob meu
domĂnio'.
"Enquanto isso, os santos de Deus estavam escutando a contenda entre SatanĂĄs e o
Inferno; eles ainda não se reconheciam, mas estavam a ponto de começar a se conhecer.
10E nosso pai AdĂŁo, por sua vez, assim respondeu a SatanĂĄs: "Ă prĂncipe da morte, por que
tremes e te amedrontas? Olha, o Senhor virĂĄ e irĂĄ destruir agora mesmo todas as tuas
criaturas, e tu serĂĄs amarrado por ele e ficarĂĄs preso por toda a eternidade'.
"EntĂŁo, todos os santos, ao ouvir a voz de nosso pai AdĂŁo e ao ver com que integridade
respondia a SatanĂĄs, alegraram-se e sentiram-se reconfortados; em pouco tempo, puseram-
se a andar em massa ao lado de AdĂŁo e reuniram-se a ele.
11E nosso pai AdĂŁo, ao olhar mais atentamente toda aquela multidĂŁo, admirava-se de ver que todos haviam sido gerados por
ele neste mundo. E então, depois de abraçar todos os que estavam ao seu redor, disse ao seu
filho Seth, derramando amargas lĂĄgrimas: "Meu filho Seth, conta aos santos patriarcas e
profetas o que o guardiĂŁo do paraĂso te disse quando caĂ doente e enviei-te para que me
trouxesses um pouco de Ăłleo da misericĂłrdia e me ungisses com ele'.
12"E Seth disse: "Quando me enviaste Ă porta do paraĂso, orei e roguei ao Senhor com
lĂĄgrimas e chamei o guardiĂŁo do paraĂso para que me desse um pouco desse Ăłleo. EntĂŁo o
arcanjo Micael saiu e disse-me: "Seth, por que choras? A propĂłsito, saibas que teu pai
Adão não receberå este óleo de misericórdia, senão depois de muitas geraçÔes se haverem
passado. Pois descerå do céu ao mundo o Filho de Deus e serå batizado por João no rio
JordĂŁo; aĂ teu pai receberĂĄ este Ăłleo de misericĂłrdia, juntamente com todos os que crĂȘem
nele; e o reino dos que acreditaram nele permanecerå pelos séculos'.
13"Quando os santos ouviram isto exultaram. E um deles ali presente, chamado IsaĂas,
exclamou em altos brados: "Pai AdĂŁo e todos os presentes, escutai minhas palavras:
enquanto vivia eu na terra, inspirado pelo EspĂrito Santo compus um cĂąntico profĂ©tico sobre
esta luz, dizendo: "O povo que permanecia nas trevas viu uma grande luz, amanheceu a luz
para os habitantes da região das sombras da morte'. Ao ouvir isto, Adão e todos os presentes o interrogaram: "Quem és tu? Porque é verdade o que estås dizendo'. E ele
respondeu: "Eu me chamo IsaĂas'.
CapĂtulo 18
1"Então alguém que se assemelhava a um religioso aproximou-se. E perguntaram-lhe
dizendo: "Quem és tu, que levas tais sinais em teu corpo?' E ele respondeu com firmeza:
"Eu sou JoĂŁo Batista, a voz e o profeta do AltĂssimo. Eu caminhei diante da face do prĂłprio
Senhor para converter os desertos e os caminhos ĂĄsperos em veredas planas. Com o meu
dedo, apontei os jerosolimitas e glorifiquei o cordeiro do Senhor e o Filho de Deus. Eu o
batizei no rio Jordão e pude ouvir a voz do Pai que trovejava do céu sobre ele e
proclamava: "Este Ă© meu Filho amado, nele regozijo-me'.
2Eu também ouvi dele a promessa
de que ele prĂłprio haveria de descer aos Infernos'.
"O pai AdĂŁo ao ouvir isto exclamou com voz grave: "Aleluia', que significa: o Senhor
estĂĄ chegando.
Depois, outro dos que estavam presentes e que se distinguia por uma espécie de
insĂgnia imperial, chamado Davi, pĂŽs-se a falar, dizendo: "Eu, vivendo ainda na terra,
revelei ao povo os mistérios da misericórdia de Deus, profetizando os futuros prazeres que
haveriam de vir com o passar dos séculos, da seguinte maneira: "Dai glória a Deus por suas
misericórdias e suas maravilhas aos filhos dos homens, porque despedaçou as portas de
bronze e arrebentou os ferrolhos de ferro'.
3Então os santos patriarcas e profetas começaram
a se reconhecer e a falar, um por um, de suas profecias. O santo profeta Jeremias,
examinando suas profecias, dizia aos patriarcas o profetas: "Vivendo na terra, profetizei
sobre o Filho de Deus, que apareceu na terra e conversou com os homens'.
"EntĂŁo todos os santos cheios de alegria por causa da luz do Senhor, por ver o pai AdĂŁo
e pela resposta de todos os patriarcas e profetas, exclamaram: "Aleluia, bendito o que vem
em nome do Senhor', de maneira que diante dessa exclamação, Satanås encheu-se de pavor
e procurou um caminho para fugir.
4Mas isto nĂŁo lhe era possĂvel, porque o Inferno e seus
satélites tinham-no subjugado o sitiado e diziam-lhe: "Por que tremes? De nenhuma
maneira permitiremos que saias daqui, mas haverĂĄs de receber isto como bem merecido,
das mãos daquele a quem atacavas sem trégua; caso contrårio, saibas que serås acorrentado
por ele e submetido Ă minha custĂłdia'.
5"E novamente ressoou a voz do Filho do Pai AltĂssimo, como o estrondo de um grande
trovĂŁo, que dizia: "Levantai vossas portas, Ăł prĂncipes, e elevai-vo, Ăł portas eternas, que o
Rei da GlĂłria vai entrar'. EstĂŁo SatanĂĄs e o Inferno puseram-se a gritar assim: "Quem Ă© esse
Rei da GlĂłria?' E a voz do Senhor lhes respondeu: "O Senhor forte e poderoso, o Senhor
forte na batalha'.
"Depois de ouvir-se esta voz, veio um homem cujo aspecto era como o de um ladrĂŁo,
com uma cruz Ă s costas, que gritava do lado de fora dizendo: "Abri a porta para que eu
entre". SatanĂĄs entĂŁo entreabriu-a e introduziu-o no recinto, fechando a porta atrĂĄs dele.
6E todos os santos viram-no cheio de luz e disseram-lhe: "Teu aspecto exterior Ă© de ladrĂŁo;
diga-nos, que Ă© isso que levas em tuas costas?' Ele humildemente respondeu e disse: "Na
verdade, fui mesmo um ladrĂŁo, e os judeus dependuraram-me na cruz com meu Senhor
Jesus Cristo, Filho do Pai AltĂssimo. Enfim, adiantei-me, mas ele vem imediatamente atrĂĄs
de mim'.
"O santo Davi, entĂŁo, encheu-se de cĂłlera contra SatanĂĄs e bradou: "Abre tuas portas, Ăł
asqueroso, para que o Rei da Glória entre'. E todos os santos de Deus também se insurgiram
contra SatanĂĄs e queriam agarrĂĄ-lo e destruĂ-lo.
7E de novo ouviu-se um grito que vinha de
dentro: "Descerrai vossas portas, Ăł prĂncipes, e elevai-vos, Ăł portas eternas, que o Rei da
GlĂłria vai entrar'. E o Inferno e SatanĂĄs novamente perguntaram Ă quela voz clara, dizendo"
"Quem Ă© este Rei da GlĂłria?' E aquela voz maravilhosa respondeu: "O Senhor das virtudes,
ele Ă© o Rei da GlĂłria'.
"E no mesmo instante o Inferno pĂŽs-se a tremer e as portas da morte, bem como as
fechaduras, despedaçaram-se, e os ferrolhos do Inferno romperam-se e caĂram ao chĂŁo,
deixando todas as coisas a descoberto. Satanås permaneceu no meio em pé, confuso e
prostrado, com os pés presos por grilhÔes.
8E eis que o Senhor Jesus Cristo entrou rodeado
de uma claridade sublime, manso, grande e humilde, levando em suas mĂŁos uma corrente;
com ela amarrou o pescoço de Satanås e depois de novamente unir suas mãos às costas,
arremessou-o ao Tårtaro e pÎs seu santo pé em sua garganta, dizendo: "Fizeste muitas
coisas mås no decorrer dos séculos; não deste nenhum descanso; hoje entrego-te ao fogo
eterno'. E chamando novamente o Inferno, disse-lhe com autoridade: "Toma este
amaldiçoado e perverso Satanås e mantém-no sob tua custódia até o dia que eu determinar'.
O Inferno aceitou-o e ambos precipitaram-se no profundo do abismo.
"EntĂŁo Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador de todos, piedosĂssimo e muito suave,
saudando novamente AdĂŁo, dizia-lhe com bondade: "A paz esteja contigo, AdĂŁo, na
companhia de teus filhos por todos os séculos dos séculos, amém'.
9E o pai AdĂŁo prostrou-se
então aos pés do Senhor e, levantando-se, beijou suas mãos e derramou abundantes
lĂĄgrimas dizendo: "Eis as mĂŁos que me criaram, elas dĂŁo testemunho a todos'. Depois
dirigiu-se ao Senhor, dizendo: "Vieste, Ăł Rei da GlĂłria, para livrar os homens e integrĂĄ-los
ao teu reino eterno'. E nossa mãe Eva caiu de maneira semelhante aos pés do Senhor, e
levantando-se novamente, beijou suas mĂŁos e derramou abundantes lĂĄgrimas enquanto
dizia: "Eis as mĂŁos que me criaram, elas dĂŁo testemunho a todos".
"EntĂŁo, todos os santos o adoraram e disseram aos brados: "Bendito o que vem em
nome do Senhor, o Senhor Deus iluminou-nos. Assim seja por todos os séculos. Aleluia por
todos os séculos: louvor, honra, virtude, glória, porque vieste do alto para visitar-nos'.
10E, cantando "aleluia' e regozijando-se de glĂłria, acorriam ao Senhor. EntĂŁo o Salvador
perscrutou Ă sua volta e mordeu o Inferno, e com a mesma rapidez com que havia
arremessado uma parte às profundezas do Tårtaro, a outra subiu consigo aos céus.
"EntĂŁo, os santos de Deus rogaram ao Senhor que deixasse nos Infernos o sinal da santa
cruz, sinal de vitĂłria, para que seus perversos ministros nĂŁo conseguissem reter nenhum
culpado que tivesse sido absolvido pelo Senhor. E assim se fez, e o Senhor colocou sua
cruz no meio do Inferno, que Ă© sinal de vitĂłria e lĂĄ permanecerĂĄ por toda a eternidade.
"Depois todos saĂmos dali na companhia do Senhor, deixando SatanĂĄs e o Inferno no
TĂĄrtaro. E nos enviou a nĂłs e a muitos outros que havĂamos ressuscitado com nosso corpo,
para dar testemunho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e do que acontecera nos
Infernos.
11"CarĂssimos irmĂŁos, isto Ă© o que vimos e testemunhamos, depois de termos sido
chamados por vĂłs e o que testemunha aquele que morreu e ressuscitou por nĂłs; porque da
forma como as coisas aconteceram, elas foram escritas com todos os detalhes."
E quando terminaram de ler o escrito, todos os que escutavam caĂram com o rosto no
chĂŁo e puseram-se a chorar amargamente, enquanto batiam duramente no peito e diziam
aos gritos: "Ai de nós! Aonde chegamos com nossa desgraça? Foge Pilatos, fogem Anås e
Caifås, fogem os sacerdotes e levitas, fogem também o povo dos judeus dizendo entre
soluços: "Ai de nós! Derramamos sobre a terra sangue inocente'."
Assim, entĂŁo, durante trĂȘs dias e trĂȘs noites nĂŁo provaram nem do pĂŁo nem da ĂĄgua e
nenhum deles voltou Ă sinagoga. Mas ao terceiro dia, o conselho novamente se reuniu e leu
a carta de LĂȘucio na Ăntegra, e nĂŁo se encontrou nela nem mais nem menos, nem sequer havia mudado uma sĂł letra do escrito de Karino.
12Então turbou-se a sinagoga e todos choraram durante quarenta dias e quarenta noites, esperando a morte e a divina vingança
das mĂŁos de Deus. Mas o altĂssimo, que Ă© todo piedade e misericĂłrdia, nĂŁo os aniquilou
para que pudesse oferecer-lhes uma oportunidade de arrependimento. NĂŁo foram dignos,
porém, de se converterem ao Senhor.
CarĂssimos irmĂŁos, estes sĂŁo os testemunhos de Karino e de LĂȘucio sobre Cristo, Filho
de Deus, e de seus santos nos Infernos, a quem damos todas as graças e glória pelos
infinitos séculos dos séculos. Amém.
FIM










