Livro de Nicodemos

Livro de Nicodemos
Introdução

Nicodemos, um nome que ecoa nos corredores do Novo Testamento, é uma figura tão enigmåtica quanto fascinante. Um fariseu e membro do Sinédrio, o conselho supremo dos judeus, ele surge nas Escrituras como um homem dividido entre a tradição religiosa de sua época e a luz que ele começa a enxergar em Jesus Cristo.

Sua histĂłria Ă© um convite Ă  reflexĂŁo sobre coragem, dĂșvida e fĂ©. Ao buscar Jesus Ă  noite, longe dos olhos vigilantes de seus pares, Nicodemos representa aqueles que lutam internamente com as demandas de sua posição social e o chamado para algo maior. Ele simboliza a jornada de muitos: um desejo de compreender o inexplicĂĄvel, de encontrar respostas em meio Ă s trevas e de reconhecer a verdade mesmo quando isso exige sacrifĂ­cio.

Este livro explora a vida de Nicodemos, desde suas interaçÔes iniciais com Jesus atĂ© os momentos decisivos em que sua fĂ© se manifesta de maneira mais pĂșblica e corajosa. NĂŁo Ă© apenas a histĂłria de um homem, mas um espelho para todos que, em algum momento, se encontraram diante da escolha entre permanecer no conforto do conhecido ou abraçar a incerteza da fĂ© em busca da verdade.

Que esta leitura nos inspire a confrontar nossas prĂłprias dĂșvidas, questionar nossas certezas e, acima de tudo, buscar a luz, mesmo que isso signifique caminhar nas sombras por um tempo.

Agora veja cada capĂ­tulo logo abaixo.

CapĂ­tulo 1

1O Dois textos apĂłcrifos constituem o Evangelho de Nicodemus: Atos de Pilatos e Descida de Cristo ao Inferno. Em Ă© seqĂŒĂȘncia do outro e o completa, embora escritos em Ă©pocas diferentes.

2Justino, em 150, menciona em seus escritos um texto chamado Atos de PÎncio Pilatos, narrando os acontecimentos posteriores à Crucificação. Nicodemus narra os episódios da Crucificação e da Ressurreição, mas nada acrescenta aos Evangelhos canÎnicos.

3Curioso Ă© observar que ele cita o local da Crucificação como sendo o horto onde Cristo foi aprisionado, o GetsĂȘmani, situado ao pĂ© do Monte das Oliveiras.

4 Eu, Ananias, protetor, de hierarquia pretoriana, perito em leis, vim através das divinas Escrituras tomar conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e me aproximei dele pela fé, e permiti-me receber o santo batismo; agora sinto-me, depois de seguir a pista das narraçÔes relativas a Nosso Senhor Jesus Cristo, que foram feitas naquela época, e que os judeus deixaram guardadas com PÎncio Pilatos; encontrei-as com estavam, escritas em hebraico, e com o beneplåcito divino traduzi-as para o grego, para o conhecimento de todos os que invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, durante o reinado de Flåvio Teodósio, nosso senhor, no ano 17, e sexto de Flåvio Valentino, na nona indicação.

5Todos, pois, quantos leiam e traduzam isto para outros livros, lembrem- se e peçam por mim para que o Senhor seja piedoso para comigo e me perdoe os pecados que cometi contra ele. Paz aos leitores, aos ouvintes e aos seus servidores. AmĂ©m. No ano dĂ©cimo quinto do governo de TibĂ©rio CĂ©sar, imperador dos romanos; no ano dĂ©cimo nono do governo de Herodes, rei da GalilĂ©ia; no oitavo dia das calendas de abril, correspondente ao dia 25 de março; durante o consulado de Rufo e RubeliĂŁo; no quarto ano da olimpĂ­ada 202; sendo, nessa Ă©poca, JosĂ© CaifĂĄs o sumo sacerdote dos judeus. Tudo o que Nicodemus narrou com base no tormento da cruz e da paixĂŁo do Senhor, transmitiu-o aos prĂ­ncipes dos sacerdotes e aos demais judeus depois de havĂȘ-lo redigido ele mesmo em hebraico.

6Depois de se haverem reunido em conselho os príncipes dos sacerdotes e os escribas, Anås e Caifås e Semes e Dothaim e Gamaliel, Judas, Levi e Neftali, Alexandre e Jairo e os restantes dentre os judeus apresentaram-se diante de Pilatos acusando Jesus de muitos feitos, dizendo: "Sabemos que ele é filho de José o carpinteiro e que nasceu de Maria, e chama-se a si mesmo Filho de Deus e rei; além disso profana o såbado e ainda pretende abolir a lei de nossos pais". Disse-lhes Pilatos: "E o que ele faz e o que ele pretende abolir?"

7Os judeus disseram: "Temos uma lei que proĂ­be a cura no Sabat; pois bem, este, servindo-se das mĂĄs artes, curou durante o Sabat coxos, machucados, cegos, paralĂ­ticos, surdos e endemoninhados".

8Disse-lhes Pilatos: "Se realiza honestamente suas curas, nĂŁo faz mal algum." Os judeus replicaram: "Se realizasse suas curas honestamente, nĂŁo seria mal maior; mas para fazĂȘ-las usa a virtude de Belzebu, prĂ­ncipe dos demĂŽnios, expulsa a estes e a todos que lhes sĂŁo submissos".

9Disse-lhes Pilatos: "Isto nĂŁo Ă© tirar os demĂŽnios pela virtude de um espĂ­rito imundo, mas sim pela virtude do deus EsculĂĄpio". Os judeus disseram a Pilatos: "Rogamos Ă  tua autoridade que ele seja apresentado diante do teu tribunal para que possa ser ouvido". Pilatos entĂŁo chamou-os e disse-lhes:

10"Dizei-me vĂłs como Ă© que eu, um mero governador, posso submeter nada menos que um rei a interrogatĂłrio?" Eles responderam: "NĂłs nĂŁo dissemos que Ă© um rei, mas sim que ele mesmo se dĂĄ esse tĂ­tulo". EntĂŁo Pilatos chamou o mensageiro para dizer-lhe: "Que me seja apresentado aqui Jesus, com toda a deferĂȘncia".

11O mensageiro saiu, entĂŁo, e logo que identificou, o adorou; depois tirou o manto que levava em suas mĂŁos e estendeu-o no chĂŁo, dizendo: "Senhor, passa por cima e entra, que o governador te chama".

CapĂ­tulo 2

1 Os judeus, vendo o que o mensageiro havia feito, puseram-se a gritar contra Pilatos, dizendo: "Por que te serviste de um mensageiro para fazĂȘ-lo entrar, e nĂŁo de um simples pregoeiro? Sabes que o mensageiro, assim que o viu, passou a adorĂĄ-lo e estendeu seu manto sobre o chĂŁo, fazendo-o caminhar por cima como se fosse um rei?"

2Pilatos, então, chamou o mensageiro e lhe disse: "Por que fizeste isso e estendeste o manto sobre o chão, fazendo Jesus passar por cima?" O mensageiro respondeu: "Senhor governador, quando me enviaste a Jerusalém junto com Alexandre eu o vi montando um burro, e os filhos dos hebreus iam aclamando-o com ramos nas mãos, enquanto outros estendiam suas vestes no chão dizendo: "Salva-nos, tu que estås nas alturas; bendito o que vem em nome do Senhor'."

3Os judeus entĂŁo começaram a gritar e disseram ao mensageiro: "Os jovens hebreus clamavam em sua lĂ­ngua, como entĂŁo informaste da sua equivalĂȘncia em grego?" O mensageiro respondeu: "Perguntei a um dos judeus e lhe disse: "Que estĂŁo gritando em hebraico?' E ele traduziu".

4Pilatos disse-lhes: "Como soa em hebraico o que eles diziam em altos brados?" Os judeus responderam: "Hosanna membrome; baruchamma; adonai". EntĂŁo Pilatos lhes disse: "E o que significa Hosanna e as outras palavras?" Os judeus responderam: "Salva-nos, tu que estĂĄs nas alturas; bendito o que vem em nome do Senhor".

5Pilatos disse-lhes: "Se vĂłs mesmos dais testemunho das vozes que saĂ­ram da boca dos jovens, que falta cometeu o mensageiro?" Eles se calaram. EntĂŁo o governador disse ao mensageiro: "Sai e faze-o entrar da maneira que lhe aprouver". Saiu, entĂŁo, o mensageiro e procedeu da mesma maneira que anteriormente, dizendo a Jesus: "Senhor, entra; o governador te chama".

6Mas no momento em que Jesus entrava, os que seguravam os estandartes inclinaram-se e adoraram a Jesus. Os judeus que presenciaram esse gesto de reverĂȘncia e adoração a Jesus, começaram a gritar desaforos contra os que portavam as bandeiras.

7Mas Pilatos lhes disse: "Não vos causa admiração ver como eles se inclinaram e adoraram Jesus?" Os judeus responderam a Pilatos: "Nós mesmos vimos como eles se inclinaram e o adoraram". O governador chamou então os que carregavam as bandeiras e lhes disse: "Por que agistes assim?"

8Eles responderam a Pilatos: "NĂłs somos gregos e servidores das divindades, como entĂŁo irĂ­amos adorĂĄ-lo? Saibas que, enquanto estĂĄvamos eretos, nossos corpos se inclinaram por eles mesmos e o adoraram". EntĂŁo Pilatos disse aos arquissinagogos e anciĂŁos do povo:

9"Escolhei vós mesmos alguns varÔes fortes e robustos; que eles segurem os estandartes e vejamos se estes inclinam-se sozinhos: "Então os anciãos escolheram de entre os judeus doze homens fortes e robustos, aos quais obrigaram a sustentar os estandartes em grupos de seis, e ficaram em pé diante do tribunal do governador.

10EntĂŁo Pilatos disse ao mensageiro: "Leva-o para fora do pretĂłrio e introduze-o novamente da maneira que te aprouver". E Jesus saiu do pretĂłrio acompanhado do mensageiro. Pilatos chamou entĂŁo aqueles que anteriormente estavam com os estandartes e lhes disse: "Jurei pela saĂșde de CĂ©sar que, se os estandartes nĂŁo se dobrarem Ă  entrada de Jesus, cortar-vos-ei as cabeças".

11E o governador ordenou novamente que Jesus entrasse. O mensageiro observou a mesma conduta do inĂ­cio e rogou encarecidamente a Jesus que passasse por cima de seu manto. E caminhando sobre ele, entrou. Mas no momento de entrar, novamente os estandartes se dobraram e adoraram Jesus.

12Quando Pilatos viu a cena, encheu-se de medo e dispĂŽs-se a deixar o tribunal. Mas enquanto ainda pensava em levantar-se, sua mulher enviou-lhe esta carta: "NĂŁo te envolvas com esse justo, pois durante a noite sofri muito por sua causa". EntĂŁo Pilatos chamou todos os judeus e lhes disse: "Sabeis que minha mulher Ă© piedosa e que tende mais para o bem do que para segui-los em vossos costumes judeus?" Eles disseram: "Sim, sabemos".

CapĂ­tulo 3

1Pilatos disse-lhes: "Pois bem, minha mulher acaba de enviar-me este recado: "NĂŁo te envolvas com esse justo, pois durante a noite sofri muito por sua causa'." Mas os judeus responderam a Pilatos dizendo: "NĂŁo te dissemos que Ă© um mĂĄgico? Sem dĂșvida enviou um sono fantĂĄstico a tua mulher".

2Pilatos entĂŁo chamou Jesus e lhe disse: "Como Ă© que estes testemunham contra ti? NĂŁo dizes nada?" Jesus respondeu: "Se nĂŁo tivessem pode para isso, nĂŁo diriam nada, pois cada um Ă© dono da sua boca para falar coisas boas e mĂĄs: eles verĂŁo".

3Mas os anciĂŁos dos judeus responderam, dizendo a Jesus: "Que Ă© que nĂłs vamos ver? Primeiro, que tu vieste ao mundo por fornicação; segundo, que o teu nascimento em BelĂ©m trouxe como conseqĂŒĂȘncia uma matança de crianças; terceiro, que teu pai JosĂ© e tua mĂŁe Maria fugiram para o Egito por encontrarem-se ameaçados na cidade".

4Então, alguns dos que ali estavam presentes, e que eram judeus piedosos, disseram: "Nós não estamos de acordo que haja de fornicação, mas sim sabemos que José desposou Maria e que não foi gerado através de fornicação". Pilatos disse aos judeus que afirmavam a sua origem através de fornicação: "Isto que dizeis não é verdade, posto que os esponsais foram celebrados, segundo afirmam vossos próprios compatriotas".

5Então Anås e Caifås disseram a Pilatos: "Todos juntos afirmamos e não cremos que ele tenha nascido de fornicação; estes são prosélitos e seus discípulos". Pilatos chamou Anås e Caifås e disse- lhes: "Que significa a palavra prosélito?" Eles responderam: "Que nasceram de pais gregos e fizeram-se judeus agora".

6Ao que contestaram os que afirmavam que Jesus não havia nascido de fornicação (isto é: Låzaro, Astério, AntÎnio, Tiago, Amnés, Zeras, Samuel, Isaac, Crispo, Agripa e Judas): "Nós não nascemos prosélitos, mas sim somos filhos de judeus e dizemos a verdade, pois encontravam-nos presentes nas bodas de José e de Maria".

7Pilatos chamou estes doze que afirmavam nĂŁo haver Jesus nascido de fornicação e disse-lhes: "Eu os conjuro pela saĂșde de CĂ©sar, dizei-me, Ă© verdade o que afirmastes, que nĂŁo nasceu de fornicação?" Eles responderam: "NĂłs temos uma lei que proĂ­be jurar, porque Ă© pecado; deixe que estes jurem pela saĂșde de CĂ©sar que nĂŁo Ă© verdade o que acabamos de dizer, e seremos rĂ©us de morte".

8Então Pilatos disse a Anås e Caifås: "Nada respondem a isto?" Eles replicaram: "Tu dås crédito a estes doze que afirmam o nascimento legítimo de Jesus; enquanto isso, todos, em massa, estamos bradando que é filho de fornicação, que é feiticeiro e que se chama a si próprio Filho de Deus". Então Pilatos ordenou que toda a multidão saísse, à exceção dos doze que negavam a origem da fornicação, e ordenou que Jesus fosse separado.

9Depois lhes disse: "Por que razĂŁo querem dar-lhe a morte?" Eles responderam: "TĂȘm inveja dele por curar no Sabat". Ao que respondeu Pilatos: "E por uma boa obra querem matĂĄ-lo?" E, cheio de ira, saiu do pretĂłrio e disse-lhes: "Tomo por testemunha o sol de que nĂŁo encontro nenhuma culpa neste homem". Os judeus responderam e disseram ao governador:

10"Se nĂŁo fosse um malfeitor, nĂŁo o haverĂ­amos entregado a ti". E Pilatos disse: "Tomai-o vĂłs e julgai-o segundo vossas leis". EntĂŁo os judeus disseram a Pilatos: "NĂŁo nos Ă© permitido matar ninguĂ©m". Ao que Pilatos contestou: "A vĂłs sim Deus proibiu de matar mas, e a mim?" E, entrando de novo no pretĂłrio, chamou Jesus Ă  parte e disse-lhe: "És o rei dos judeus?"

CapĂ­tulo 4

1Jesus respondeu: "Dizes isto por conta própria ou pelo que os outros te disseram de mim?" Pilatos replicou: "Mas serå que também sou por acaso judeus? Teu povo e os pontífices puseram-te em minhas mãos, que fizeste?" Jesus respondeu: "Meu reino não é deste mundo pois, caso contrårio, meus servidores teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu reino não é daqui".

2Então Pilatos disse: "Logo, tu és rei?" Jesus respondeu: "Tu dizes que eu sou rei; pois para isto nasci e vim ao mundo, para que todo aquele que é da verdade, ouça minha voz". Pilatos disse-lhe: "Que é a verdade?" Jesus respondeu: "A verdade provém do céu".

3Pilatos disse: "NĂŁo hĂĄ verdade sobre a terra?" E Jesus respondeu a Pilatos: "EstĂĄs vendo que os que dizem a verdade sĂŁo julgados pelos que exercem o poder sobre a terra". E deixando Jesus no interior do pretĂłrio, Pilatos foi atĂ© os judeus e lhes disse: "Eu nĂŁo encontro culpa alguma nele". Os judeus replicaram: "Ele disse: "Eu sou capaz de destruir este templo e reedificĂĄ-lo em trĂȘs dias.

4Pilatos disse: "Que templo?" Os judeus responderam: "Aquele edificado por SalomĂŁo em quarenta e seis anos, ele diz que vai destruĂ­-lo e reedificĂĄ-lo ao final de trĂȘs dias". Pilatos disse: "Eu sou inocente do sangue deste justo; vĂłs vereis". E os judeus disseram: "Seu sangue sobre nĂłs e sobre nossos filhos".

5EntĂŁo Pilatos chamou os anciĂŁos, os sacerdotes e os levitas e disse-lhes em segredo: "NĂŁo agi assim, pois nenhuma das vossas acusaçÔes merece a morte, jĂĄ que elas referem-se Ă s curas e Ă  profanação do Sabat". Os anciĂŁos, sacerdotes e levitas responderam: "Se alguĂ©m blasfema contra CĂ©sar Ă© ou nĂŁo digno da morte?" Pilatos disse-lhes: "É digno da morte". Os judeus disseram:

6"Pois se alguém que blasfema contra César é digno da morte, saiba que este blasfemou contra Deus". Depois o governador mandou que os judeus saíssem do pretório, e chamando Jesus, disse-lhe: "Que vou fazer contigo?" Jesus respondeu: "Faz como te foi ordenado".

7Pilatos disse: "E como me foi ordenado?" Jesus respondeu: "Moisés e os profetas falaram sobre a minha morte e sobre a ressurreição". Os judeus e os ouvintes perguntaram então a Pilatos dizendo:

8"Por que continuas ouvindo essa blasfĂȘmia?" Pilatos respondeu: "Se estas palavras sĂŁo blasfĂȘmias, prendei-o por blasfĂȘmia, levai-o Ă  vossa sinagoga e julgai-o segundo vossa lei". Os judeus contestaram: "EstĂĄ escrito em nossa lei que se um homem peca contra outro homem merece receber quarenta açoites menos um; mas diz que se alguĂ©m blasfema contra Deus deve ser apedrejado".

9Pilatos disse-lhes: "Tomai-o por vossa conta e castigai-o como quiserdes". Os judeus replicaram: "Nós queremos que seja crucificado". Pilatos contestou: "Não merece a crucificação". Então o governador lançou um olhar ao seu redor sobre a turba de judeus que estava presente e, ao ver que muitos deles choravam, exclamou: "Nem toda a multidão quer que morra".

10Os anciãos dos judeus disseram: "Por isso viemos todos em massa, para que morra". Pilatos perguntou-lhes: "E por que deverå morrer?" Os judeus responderam: "Porque chamou-se a si próprio filho de Deus e rei". Um certo judeu de nome Nicodemus pÎs-se diante do governador e disse: "Rogo-te, bondoso como és, permiti-me dizer umas palavras:

11"Pilatos respondeu: "Fala". E Nicodemus disse: "Tenho falado nestes termos aos anciĂŁos, aos levitas, Ă  multidĂŁo inteira de Israel reunida na sinagoga: "Que pretendeis fazer com este homem? Ele opera muitos milagres e prodĂ­gios como nenhum outro foi nem serĂĄ capaz de fazer. Deixai-o em paz e nĂŁo trameis nada contra ele; se os seus prodĂ­gios tĂȘm origem divina, permanecerĂŁo firmes; porĂ©m, se tĂȘm origem humana, dissipar-se-ĂŁo.

12Pois também Moisés, quando foi enviado da parte de Deus ao Egito, fez muitos prodígios, previamente assinalados por Deus, na presença do Faraó, rei do Egito. E estavam ali alguns homens a serviço do Faraó, Jamnes e Jambres, os quais operaram, por sua vez, não poucos prodígios como os de Moisés, e os habitantes do Egito tinham Jamnes e Jambres por deuses.

13Mas como os seus prodígios não provinham de Deus, eles pereceram, bem como os que lhes davam crédito. E agora, deixai livre este homem, pois não é digno de morrer'." Os judeus disseram então a Nicodemus: "Tu te fizeste discípulo dele e por isso falas em seu favor". Nicodemus disse-lhes: "Mas então também o governador fez-se discípulo dele porque fala em sua defesa? Não o colocou César neste cargo? Os judeus estavam com muita raiva e rangiam os dentes contra Nicodemus.

CapĂ­tulo 5

1Pilatos disse-lhes: "Por que rangeis os dentes contra ele ao ouvir a verdade?" Os judeus disseram a Nicodemus: "A ti sua verdade e sua parte". Nicodemus disse: "Amém, amém, que assim seja como haveis dito". Mas um dos judeus adiantou-se e pediu a palavra ao governador. Este lhe disse: "Se queres dizer algo, diz".

2E o judeus assim falou: "Eu estive durante trinta e oito anos deitado numa liteira, cheio de dores. Quando Jesus veio, muitos dos que estavam endemoninhados e sujeitos a diversas doenças foram curados por ele. Então alguns jovens compadeceram-se de mim e, pegando-me com liteira e tudo, levaram-me até ele.

3Jesus, ao ver-me, compadeceu-se de mim e disse-me: "Pega tua maca e anda'. Eu peguei minha maca e comecei a andar". EntĂŁo os judeus disseram a Pilatos: "Pergunta-lhe que dia era quando foi curado". E o interessado disse: "Era Sabat".

4Os judeus disseram: "Jå não te havíamos informado de que curava no Sabat e tirava demÎnios?" Outro judeus adiantou-se e disse: "Eu era cego de nascença, ouvia vozes, mas não via ninguém, e, ao ver passar Jesus, gritei bem alto: "Filho de Davi, apiedai-te de mim'. E compadeceu-se de mim, impÎs suas mãos sobre os meus olhos e imediatamente recuperei a visão".

5E outro judeus adiantou-se e disse: "Estava arqueado e endireitou-me com uma palavra". E outro disse: "Havia contraído lepra e ele curou-me com uma palavra". E certa mulher chamada Berenice (VerÎnica) começou a gritar de longe, dizendo: "Encontrando-me doente com hemorragia, toquei a extremidade de seu manto e a hemorragia que eu vinha tendo por doze anos consecutivos, parou".

6Os judeus disseram: "Existe um preceito que proíbe apresentar uma mulher como testemunha". E alguns outros, muitos homens e mulheres gritavam, dizendo: "Este homem é profeta e os demÎnios submetem-se a ele". Pilatos disse aos que afirmavam isto: "Por que também vossos mestres não se submeteram a ele?" Eles responderam: "Não sabemos".

7Outros afirmaram que havia ressuscitado Låzaro do sepulcro, defunto jå de quarenta dias. Então, cheio de medo, o governador disse à multidão de judeus: "Por que vos empenhais em derramar sangue inocente?" E depois de chamar Nicodemus e aqueles doze homens que afirmavam a origem limpa de Jesus, disse-lhes: "Que devo fazer, pois estå forjando um alvoroço entre o povo?"

8Disseram-lhe: "Nós não sabemos; eles verão". Convocou de novo Pilatos a multidão de judeus e disse-lhes: "Sabeis que tenho por costume soltar um prisioneiro durante a festa dos åzimos. Pois bem, estå preso e condenado um assassino chamado Barrabås, e tenho também este Jesus que estå agora na vossa presença, e em quem não encontro culpa alguma.

9A quem quereis que solte?" Eles gritaram: "A Barrabås". Pilatos disse-lhes: "Que farei, pois, de Jesus, o chamado Cristo?" Os judeus responderam: "Que seja crucificado!" E alguns dentre eles disseram: "Não és amigo de César se soltas a este, porque chamou-se a si próprio Filho de Deus e rei; se assim procedes, queres a este por rei e não a César". Pilatos então, encolerizado, disse aos judeus: "Vossa raça é revoltada por natureza e enfrentais vossos benfeitores".

CapĂ­tulo 6

1Os judeus disseram: "A quais benfeitores?" Pilatos respondeu: "Vosso Deus tirou-vos do Egito, livrando-vos de uma cruel escravidão; vos manteve sãos e salvos através do mar bem como através da terra, alimentou-vos com manå no deserto e deu-vos codornas, deu-vos de beber ågua tirada de uma rocha e deu-vos uma lei, e, depois de tudo isso, encolerizastes vosso Deus, fostes atrås de um bezerro fundido, exasperastes vosso Deus e Ele dispÎs-se a exterminar-vos; porém, Moisés intercedeu por vós e não fostes entregues à morte.

2E agora acusais a mim de odiar o imperador". E, levantando-se do tribunal, dispÎs-se a sair. Mas os judeus começaram a gritar dizendo: "Nós reconhecemos como rei a César e não a Jesus. E ainda mais, os Magos vieram oferecer-lhe dons trazidos do Oriente como para o seu rei; e quando Herodes tomou conhecimento através dessas personagens de que um rei havia nascido, tentou acabar com ele.

3Mas seu pai JosĂ© tomou ciĂȘncia do fato e levou-o juntamente com a mĂŁe, e fugiram todos para o Egito. E quando Herodes soube disso, exterminou os filhos dos hebreus que haviam nascido em BelĂ©m". Quando Pilatos ouviu estas palavras, temeu, e depois de impor silĂȘncio Ă s turbas, jĂĄ que estavam gritando, disse-lhes: "EntĂŁo Ă© este aquele a quem Herodes buscava?" Os judeus responderam: "Sim, Ă© este".

4Então Pilatos pegou ågua e lavou suas mãos, de frente para o sol, dizendo: "Sou inocente do sangue deste justo; vós vereis". E novamente os judeus começaram a gritar: "Seus sangue sobre nós e sobre nossos filhos". Então Pilatos mandou que fosse corrido o véu do tribunal onde estava sentado e disse a Jesus: "Teu povo desmentiu-te como rei.

5Por isso decretei que em primeiro lugar sejas flagelado, de acordo com o antigo costume dos reis piedosos, e que depois sejas dependurado na crus no horto onde foste aprisionado. E Dimas e Gestas, ambos malfeitores, serĂŁo crucificados juntamente contigo".

6Assim, Jesus saiu do pretĂłrio acompanhado dos dois malfeitores. E, em chegando ao lugar convencionado, despojaram-no de suas vestes, enrolaram-no em um lençol e puseram uma coroa de espinhos ao redor de suas tĂȘmporas. Dependuraram os dois malfeitores, de maneira semelhante. Enquanto isso, Jesus dizia: "Pai, perdoai-os, porque nĂŁo sabem o que fazem".

7E os soldados repartiram entre si as suas vestes, e todo o povo estava em pé contemplando-o. E os pontífices e também os chefes zombaram dele, dizendo: "Salvou os outros; salve-se, então, a si próprio; se este é o Filho de Deus, que desça da cruz". Os soldados, por sua vez, aproximavam-se dirigindo-lhe escårnios e oferecendo-lhe vinagre misturado com fel, enquanto diziam: "Tu és o rei dos judeus: salva-te a ti mesmo".

8E depois de proferir a sentença, o governador mandou que na forma de um título fosse escrito em cima da cruz a sua acusação em grego, latim e hebraico, de acordo com o que os judeus haviam dito: "Rei dos Judeus".

9E um daqueles ladrÔes que haviam sido dependurado disse-lhe assim: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós". Mas Dimas, em resposta, repreendeu-o dizendo: "Tu não temes a Deus, ainda que estejas na mesma condenação? E a nós, certamente, ela no cabe bem, pois recebemos a recompensa justa pelas nossas obras; mas este não fez nada de mal".

10E dizia: "Senhor, lembra-te de mim no teu reino". E Jesus disse-lhe: "Em verdade, em verdade te dito que hoje estarås comigo no paraíso". Era a hora sexta quando as trevas se fecharam sobre a terra até a nona hora, por haver escurecido o sol; e o véu do templo rasgou-se ao meio. Jesus, então, com voz grave, disse:

11"Pai, baddach efkid ruel", que significa: "Em tuas mĂŁos entrego o meu espĂ­rito". E, assim dizendo, entregou sua alma. O centuriĂŁo, ao ver o que aconteceu, louvou a Deus dizendo: "Este homem era justo". E a multidĂŁo que assistia ao espetĂĄculo, ao contemplar o acontecido, passou a bater no peito. O centuriĂŁo, por sua vez, transmitiu ao governador o ocorrido. Este, ao ouvi-lo, entristeceu-se assim como sua mulher, e ambos passaram todo aquele dia sem comer nem beber.

CapĂ­tulo 7

1Depois Pilatos fez chamar os judeus e disse-lhes: "Vistes o que se passou?" Mas eles responderam: "Foi um simples eclipse do sol, como de costume". Enquanto isso, seus conhecidos permaneciam a distùncia; e as mulheres que o haviam acompanhado desde a Galiléia estavam contemplando tudo isto. Mas havia um homem chamado José, senador, vindo de Arimatéia, que esperava o reino de Deus.

2Aproximou-se, então, de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Depois foi baixar o cadåver da cruz e envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no sepulcro talhado em pedra que ainda não havia sido usado. Quando os judeus ouviram dizer que José havia reclamado o corpo de Jesus, começaram a procurå-lo, assim como também aqueles que haviam declarado que Jesus não havia nascido de fornicação.

3Nicodemus e muitos outros que se haviam apresentado diante de Pilatos para dar testemunho das suas boas obras. E, como todos se houvessem escondido, somente Nicodemus apareceu, porque era varĂŁo principal entre os judeus. Assim, Nicodemus disse-lhes: "Como haveis entrado na sinagoga?" Os judeus responderam: "E tu? Como entraste na sinagoga? Posto que Ă©s seu cĂșmplice, seja tambĂ©m sua parte contida no sĂ©culo vindouro". E Nicodemus disse: "Assim seja, assim seja".

4JosĂ©, por sua vez, apresentou-se de maneira semelhante e disse-lhes: "Por que haveis ficado apreensivos comigo por ter reclamado o corpo de Jesus? Pois sabei que depositei-o no meu novo sepulcro, depois de havĂȘ-lo envolvido num lençol branco, e fiz correr a pedra sobre a entrada da gruta.

5Mas não vos portastes bem com aquele justo, pois que, não contentes em crucificå-lo, também o atravessastes com uma lança". Os judeus então detiveram José e mandaram que fosse aprisionado até o primeiro dia da semana. Depois disseram-lhe: "Bem sabes que o avançado da hora não nos permite fazer nada contra ti, pois o såbado jå estå amanhecendo; mas saiba que nem sequer far-se-å o favor de dar-te sepultura, mas sim exporemos teu corpo às aves do céu".

6José retrucou: "Esta maneira de falar é a do soberbo Golias que injuriou o Deus vivo e o santo Davi. Pois o Senhor disse através do profeta: "A mim corresponde a vingança e eu retribuirei'. E ainda hå pouco, aquele que não é circuncidado segundo a carne, mas é circunciso de coração, tomou ågua, lavou as mãos de frente para o sol e disse: "Sou inocente do sangue deste justo; vós havereis de ver'.

7Mas vós respondestes a Pilatos: "Seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos'. Agora, então, temo que a ira do Senhor recaia sobre vós e sobre vossos filhos, como dissestes". Ao ouvir essas palavras os judeus sentiram seus coraçÔes encherem-se de raiva, e, depois de capturar José, detiveram-no e prenderam-no em uma casa onde não havia nenhuma janela; depois selaram a porta onde José estava preso e alguns guardas permaneceram junto dela.

8E no såbado os arquissinagogos, os sacerdotes e os levitas estabeleceram que no dia seguinte todos deveriam encontrar-se na sinagoga. E bem de madrugada a multidão inteira pÎs-se a deliberar que tipo de morte haveriam de dar-lhe. E estando o conselho reunido, ordenaram que o fizessem comparecer com grande desonra. E abriram a porta mas não o encontraram. Então o povo ficou fora de si e todos encheram-se de admiração ao encontrar os selos intactos e a chave em poder de Caifås. Com isto, não se atreveram a pÎr as mãos sobre aqueles que haviam falado diante de Pilatos em defesa de Jesus.

CapĂ­tulo 8

1E enquanto estavam ainda sentados na sinagoga, cheios de admiração pelo caso de José, chegaram alguns dos guardas, aqueles a quem os judeus haviam encomendado a Pilatos a custódia do sepulcro de Jesus, e disseram que não foram seus discípulos que o haviam tirado de lå.

2E foram prestar contas aos arquissinagogos, aos sacerdotes e aos levitas dizendo-lhes o que aconteceu; isto é, como "sobreveio um terremoto e vimos um anjo que descia do céu, que retirou a pedra da boca da gruta, sentando-se depois sobre ela. E brilhou como neve e como relùmpago. Com o que nós, cheio de medo, ficamos como mortos.

3Então ouvimos a voz do anjo que falava às mulheres que se encontravam junto ao sepulcro: "Não temais, pois sei que buscais a Jesus, o que foi crucificado. Não estå aqui; ressuscitou como havia dito; vinde, vede o lugar onde jazia o Senhor. E agora ide rapidamente e dizei aos seus discípulos que ressuscitou de entre os mortos e que estå na Galiléia'."

4Os judeus entĂŁo disseram: "A quais mulheres falava ele?" Os da guarda responderam: "NĂŁo sabemos quem eram ". Os judeus disseram: "A que horas isto aconteceu?" Os da guarda responderam: "ĂŁ meia-noite". Os judeus disseram: "E por que nĂŁo as detivestes?" Os da guarda responderam: "Ficamos como mortos pelo medo, nĂŁo acreditando que poderĂ­amos ver de novo a luz do dia, como irĂ­amos detĂȘ-las?" Os judeus disseram: "Deus vive e nĂłs nĂŁo acreditamos".

5Os da guarda não responderam: "Vistes tantos sinais naquele homem e não acreditastes? Como ireis dar-nos crédito? E, com razão, haveis jurado pela vida do Senhor, pois Ele também vive". E os da guarda acrescentaram: "Temos ouvido dizer que prendestes aquele que reclamou o corpo de Jesus, selando a porta, e que ao abri-la não o encontrastes. Entregai, pois, José e vos entregaremos Jesus".

6Os judeus disseram: "José se foi para a sua cidade". E os da guarda replicaram: "Também Jesus ressuscitou, como ouvimos o anjo, e estå na Galiléia". Ao ouvir estas palavras os judeus sentiram medo e disseram: "Não deixeis que isto se espalhe porque senão todos inclinar-se-ão diante de Jesus". E, convocado o conselho, fizeram um depósito de muito dinheiro e deram-no aos soldados, dizendo: "Dizei: "Enquanto dormíamos, seus discípulos vieram de noite e o levaram'.

7E se isto chegar aos ouvidos do governador, persuadi-lo-emos e livrå-los-emos de toda a responsabilidade". Eles pegaram o dinheiro e falaram da maneira que lhes havia sido indicada. Mas um sacerdote chamado Finees, Adas, o doutor, e Ageu, levita, desceram da Galiléia até Jerusalém e contaram aos arquissinagogos, aos sacerdotes e aos levitas: "Vimos Jesus em companhia de seus discípulos sentado no monte chamado Mamilch, e dizia-lhes: "Ide pelo mundo e pregai a todas as criaturas; aquele que crer e for batizado, salvar-se-å; mas aquele que não crer, estå condenado.

8E aqueles que tiverem acreditado, estes sinais os acompanharĂŁo: arremessarĂŁo demĂŽnios em meu nome; falarĂŁo em novas lĂ­nguas; colherĂŁo serpentes; e, mesmo que beberem alguma coisa capaz de produzir a morte, nĂŁo lhes farĂĄ dano; imporĂŁo suas mĂŁos sobre os enfermos e estes sentir-se-ĂŁo bem'.

9E, quando ainda lhes estava falando, vimos que ia subindo ao céu". Os anciãos, os sacerdotes e os levitas disseram: "Glorificai e confessai ao Deus de Israel se é que ouvistes e vistes o que acabais de dizer". Os que haviam falado disseram: "O Senhor Deus de nossos pais Abraão, Isaac e Jacob vive, pois que ouvimos isto e o vimos ao ser elevado ao céu".

10Os anciãos, os sacerdotes e os levitas disseram: "Viestes para prestar- nos conta de tudo isto ou para cumprir algum voto feito a Deus?" Então os anciãos, os pontífices e os levitas replicaram: "Se haveis vindo para cumprir um voto a Deus, qual a razão destas histórias mentirosas que haveis contado diante de todo o povo?" Finees o sacerdote, Adass, o doutor, e Ageu, o levita, disseram aos arquissinagogos e levitas: "Se estes fatos que contamos, e dos quais fomos testemunhas oculares, constituem um pecado, aqui nos tendes em vossa presença; fazei conosco o que lhes pareça bom diante de vossos olhos".

CapĂ­tulo 9

1EntĂŁo eles pegaram o livro da lei e fizeram-nos jurar que nĂŁo mencionariam a ninguĂ©m aquelas coisas. Depois deram-lhes de comer e de beber e tiraram-nos da cidade, nĂŁo sem antes haver-lhes dado dinheiro e haver-lhes dado trĂȘs homens para que os acompanhassem, e que deveriam levĂĄ-los atĂ© os confins da GalilĂ©ia.

2E foram-se em paz. E depois que aqueles homens foram para a Galiléia, os pontífices, os arquissinagogos e os anciãos reuniram-se na sinagoga, fechando a porta atrås de si, e demonstrando grande dor, diziam: "Serå possível que este portento aconteceu em Israel?"

3Então Anås e Caifås disseram: "Por que estais tão agitados? Por que chorais? Ou não sabeis que seus discípulos compararam-nos com uma boa quantidade de ouro e deram-lhes instruçÔes para que digam que um anjo do Senhor desceu e removeu a pedra da entrada do sepulcro?" Mas os sacerdotes e anciãos disseram: "Pode ser que os discípulos tenham roubado seu corpo, mas, como sua alma entrou no corpo e estå vivendo na Galiléia?" E eles, na impossibilidade de dar-lhes resposta para todas estas coisas, disseram enfim a duras penas: "A nós não nos é permitido acreditar em alguns não circuncidados".

4Mas Nicodemus levantou-se e pÎs-se em pé diante do conselho, dizendo: "Falais perfeitamente. Não desconheceis, ó povo do Senhor, os varÔes que desceram da Galiléia, homens de recursos, tementes a Deus, inimigos da avareza, amigos da paz. Pois bem, eles disseram sob juramento que viram Jesus no monte Mamilch em companhia de seus discípulos, que estava ensinando todas as coisas que pudessem ouvir da sua boca e que o viram no momento de ser elevado ao céu.

5E ninguém perguntou-lhes de que maneira foi elevado. Então como ensinava-nos, estava contido no livro das Sagradas Escrituras que Elias foi elevado ao céu e que Eliseu gritou fortemente, fazendo com que Elias atirasse sua capa sobre o Jordão, e assim Eliseu pÎde atravessar o rio e chegar até Jericó. Então os filhos dos profetas saíram ao seu encontro e disseram-lhe: "Eliseu, onde estå Elias, teu senhor?' Ele respondeu que havia sido elevado ao céu. E eles disseram a Eliseu: "Serå que o espírito não o arrancou e o atirou sobre algum monte? Levamos nossos criados conosco e partamos em sua busca'.

6E convenceram Eliseu, que foi com eles. E andaram buscando-o durante trĂȘs dias inteiros, sem encontrĂĄ-lo, pelo que tiveram conhecimento de que havia sido chamado. E agora dai-me atenção: enviemos uma expedição por todos os confins de Israel e vejamos se por ventura Cristo foi chamado por um espĂ­rito e foi depois atirado num desses montes". Esta proposição agradou a todos e enviaram uma expedição por todos os confins de Israel em busca de Jesus e nĂŁo o encontraram. Encontraram foi JosĂ© de ArimatĂ©ia, mas ninguĂ©m atreveu-se a detĂȘ-lo.

7E foram-se a prestar contas aos anciãos e aos sacerdotes e aos levitas, dizendo: "Demos a volta por todos os confins de Israel e não encontramos Jesus, mas encontramos sim José de Arimatéia". Ao ouvir falar de José, os arquissinagogos, os sacerdotes e os levitas encheram-se de alegria, deram glória a Deus e puseram-se a deliberar de que maneira poderiam entrevistar-se com José.

8E pegaram um rolo de papel e escreveram o seguinte para José: "Que a paz esteja contigo; sabemos que pecamos contra Deus e contra ti. E temos rogado ao Deus de Israel que permita com que venhas ao encontro de teus pais e de teus filhos. Pois sabes que todos enchemo-nos de aflição quando, ao abrir a porta, não o encontramos.

9E agora nos apercebemos de que havíamos tomado uma determinação perversa contra ti; mas o Senhor veio em tua ajuda e Ele mesmo encarregou-se de dissipar nosso mau propósito, honoråvel pai José". E escolheram, entre todo Israel, sete varÔes amigos de José, os quais José conhecia, e os arquissinagogos, sacerdotes e levitas disseram-lhes: "Olhai, se ao receber nossa carta ele a ler, sabereis que virå até nós em vossa companhia: porém, se não a ler, entendi que estå desgostoso conosco, e, depois de dar-lhe um beijo de paz, voltai aqui".

10Em seguida, abençoaram os emissĂĄrios e os despediram. EntĂŁo estes chegaram ao lugar onde estava JosĂ©, e fazendo-lhe uma reverĂȘncia, disseram-lhe: "A paz esteja contido". E ele por sua vez disse: "Que a paz esteja convosco e com todo o povo de Israel". EntĂŁo eles lhe entregaram a carta. JosĂ© aceitou-a, leu-a, beijou-a e louvou a Deus, dizendo: "Bendito o Senhor Deus, que livrou Israel de derramar sangue inocente, e bendito o Senhor que enviou seu anjo e abrigou-me sob as suas asas".

11Depois, preparou a mesa e ali comeram, beberam e dormiram. No dia seguinte levantaram-se muito cedo e fizeram suas oraçÔes. Depois, José selou sua mula e pÎs-se a caminho acompanhado daqueles homens e foram até a cidade santa de Jerusalém. E o povo em massa saiu ao encontro de José, gritando: "Entra em paz".

12Ele disse dirigindo-se a todo o povo: "Que a paz esteja convosco". E eles deram-lhe um beijo, prostrando-se em oração juntamente com José. E ficaram todos fora de si por poder contemplå-lo. Nicodemus hospedou-o em sua casa e em sua honra deu uma grande recepção, convidando Anås, Caifås, os anciãos, os sacerdotes e os levitas.

CapĂ­tulo 10

1E alegraram-se comendo e bebendo em companhia de José; e, depois de entoar hinos, cada qual foi para sua casa. José, porém, permaneceu com Nicodemus. Mas no dia seguinte, que era sexta-feira, os arquissinagogos, sacerdotes e levitas madrugaram para ir à casa de Nicodemus. Este veio ao seu encontro e disse-lhes: "Que a paz esteja convosco".

2E eles por sua vez disseram: "Que a paz esteja contigo e com JosĂ©, com toda a tua casa e com toda a casa de JosĂ©". EntĂŁo fĂȘ-los entrar em sua casa. O conselho estava todo reunido, e JosĂ© veio sentar-se entre AnĂĄs e CaifĂĄs. E ninguĂ©m se atreveu a dizer-lhe uma palavra.

3Então José disse: "A quem obedece aquele que me convocou?" Eles fizeram sinais a Nicodemus para que falasse com José. Ele então abriu sua boca e falou-lhe assim: "Sabes que os veneråveis doutores, assim como os sacerdotes e levitas, desejam saber de ti uma coisa". E José disse: "Perguntai". Então Anås e Caifås pegaram o livro da lei e colocaram José sob juramento dizendo: "Glorifica e confessa a Deus de Israel.

4Sabei que Achar, ao ser conjurado pelo profeta Jesus, nĂŁo cometeu perjĂșrio, mas sim anunciou tudo e nĂŁo ocultou uma sĂł palavra. Tu, pois, tambĂ©m nĂŁo oculte de nĂłs nenhuma palavra. E JosĂ© disse: "NĂŁo ocultar-vos-ei uma sĂł palavra". EntĂŁo eles lhe disseram: "Sentimos uma grande contrariedade quanto pediste o corpo de Jesus e envolveste-o em um lençol limpo e puseste-o no sepulcro. Por isso detivemos-te num recinto onde nĂŁo havia nenhuma janela.

5Deixamos, além disso, as portas trancadas e fechadas a chave e dois guardas ficaram custodiando a prisão onde estavas fechado. Porém, quando fomos abrir, no primeiro dia da semana, não te encontramos e preocupamo-nos ao måximo e foi-se estabelecendo o espanto sobre todo o povo de Deus até ontem. Agora, então, conta-nos o que aconteceu contigo".

6E José disse: "Na sexta-feira, à décima hora, encarcerastes-me, e ali permaneci durante o Sabat todo. Mas à meia-noite, enquanto eu estava em pé orando, a casa onde me deixastes fechado ficou suspensa nos quatro ùngulos e vi como que um relùmpago de luz diante dos meus olhos.

7Amedrontei-me, então caí ao chão. Porém, alguém pegou a minha mão e levantou-me do lugar onde estava caído. Senti depois que a ågua derramava-se sobre mim desde a cabeça até os pés e veio às minhas narinas uma fragrùncia de bålsamo. E aquela personagem desconhecida enxugou-me o rosto, deu-me um beijo e disse-me: "Não temas, José; abre teus olhos e olha para quem te fala'.

8EntĂŁo levantando meus olhos, vi Jesus; mas no meu estremecimento supus que era um fantasma e pus-me a recitar os mandamentos. E ele pĂŽs-se a recitĂĄ-los junto comigo. Como sabeis muito bem, se um fantasma vem ao vosso encontro e ouve os mandamentos, foge rapidamente. Vendo, entĂŁo, que recitava-os juntamente comigo, disse-lhe: "Mestre Elias'. Mas ele disse-me: "NĂŁo sou Elias'.

9Eu então disse: "Quem sois, Senhor?' Ele disse-me: "Eu sou Jesus, aquele cujo o corpo tu pediste a Pilatos e envolveste com um lençol limpo, e puseste um sudårio sobre a cabeça, e colocaste em tua gruta nova, e rolaste uma grande pedra à sua entrada'. E eu disse ao que me falava: "Mostrai-me o lugar onde te coloquei'.

10E ele levou-me e mostrou-me o lugar onde eu o colocara; nele estavam estendidos o lençol e o sudårio que havia servido para seu rosto. Então reconheci que era Jesus. Depois ele pegou minha mão e deixou-me a portas fechadas dentro da minha casa; em seguida, acompanhou-me até minha cama e disse-me: "Que a paz esteja contigo'.

CapĂ­tulo 11

1A seguir deu-me um beijo, dizendo-me: "Até que se completem quarenta dias não saias de tua casa; pois eis que vou até a Galiléia ao encontro de meus irmãos'." Quando os arquissinagogos, sacerdotes e levitas ouviram estas palavras dos låbios de José, ficaram como mortos e caíram ao chão. E jejuaram até a nona hora. Então Nicodemus e José puseram-se a animar Anås e Caifås, os sacerdotes e os levitas, dizendo: "Levantai, ficai em pé e robustecei vossas almas, pois amanhã é o Sabat do Senhor".

2E com isto levantaram-se, oraram a Deus, comeram, beberam e cada um voltou Ă  sua casa. No sĂĄbado seguinte, nossos doutores reuniram-se em conselho, bem como os sacerdotes e levitas, discutindo entre si e dizendo: "Que serĂĄ esta cĂłlera que se formou sobre nĂłs? Porque, de nossa parte, conhecemos bem seu pai e sua mĂŁe". EntĂŁo, Levi o doutor disse: "Conheço seus pais e sei que sĂŁo tementes a Deus, que nĂŁo descuidam de seus votos e que trĂȘs vezes por ano dĂŁo seus dĂ­zimos. Quando Jesus nasceu, trouxeram-no a este lugar e ofereceram a Deus sacrifĂ­cios e holocaustos.

3E o grande doutor Simeão, ao tomå-lo em seus braços, disse: "Agora despeça o teu servo em paz, Senhor, segundo tua palavra; pois meus olhos viram tua salvação, que preparaste para a face de todos os povos; luz para a revelação dos gentios e glória do teu povo de Israel'. E Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: "Dou-te boas novas com relação a este menino'.

4Maria disse: "Boas, senhor?' E Simeão respondeu: "Boas; olha, este foi colocado para a queda e ressurreição de muitos em Israel e para seu um sinal de contradição. Tua própria alma serå atravessada por uma espada de forma que os pensamentos de muitos fiquem a descoberto'." Então disseram a Levi o doutor: "Como sabes tu disto?" Ele respondeu: "Não sabeis que aprendi a lei dos seus låbios?" Os do conselho disseram: "Queremos ver teu pai".

5E fizeram com que o pai de Levi fosse chamado. E, quando o interrogaram, ele respondeu: "Por que nĂŁo acreditastes em meu filho? O bem-aventurado e justo SimeĂŁo em pessoa ensinou-lhe a lei". E o conselho disse-lhe: "Mestre Levi, Ă© verdade o que disseste?" Ele respondeu: "É verdade". E os arquissinagogos, sacerdotes e levitas disseram entre si: "Eia! Enviemos Ă  GalilĂ©ia os trĂȘs homens que vieram trazer ao nosso conhecimento sua doutrina e sua ascensĂŁo, e que nos digam de que maneira viram-no elevar-se".

6E esta proposição agradou a todos. Enviaram, pois, os trĂȘs homens que os haviam acompanhado anteriormente atĂ© a GalilĂ©ia com essa incumbĂȘncia: "Dizei ao mestre Adas, ao mestre Finees e ao mestre Ageu: "Que a paz esteja convosco e com os que estĂŁo em vossa companhia'. Tendo havido uma grande discussĂŁo neste conselho, viemos para levar-vos a este lugar santo de JerusalĂ©m".

7Puseram-se, pois, os homens a caminho da Galiléia e os encontraram sentados e absortos com o estudo da lei. Deram-lhe um abraço de paz. Então disseram os varÔes galileus a quem havia ido buscar: "Que a paz esteja convosco". E aqueles disseram de novo: "A que viestes?" Os enviados responderam: "Chama-vos os conselho da santa cidade de Jerusalém".

8Quando aqueles homens ouviram que eram procurados pelo conselho, fizeram oraçÔes a Deus, sentaram-se Ă  mesa com os enviados, comeram, beberam, levantaram-se e puseram-se tranqĂŒilamente a caminho de JerusalĂ©m. No dia seguinte, o conselho reuniu-se na sinagoga e os interrogaram dizendo: "É verdade que vistes Jesus sentado no monte Mamilch dando instruçÔes aos seus onze discĂ­pulos e que presenciastes sua ascensĂŁo?" E os homens responderam desta maneira: "Da mesma maneira que o vimos ao ser elevado, assim vos contamos".

9Então Anås disse: "Separemo-los uns dos outros e vejamos se suas declaraçÔes coincidem". E foram separados. Depois, em primeiro lugar, chamaram Adas e lhe disseram: "Mestre, como contemplaste a ascensão de Jesus?" Adas respondeu: "Enquanto ainda estava sentado no monte Mamilch e dava instruçÔes aos seus discípulos, vimos uma nuvem que cobriu a todos com sua sombra; depois, a mesma nuvem elevou Jesus até o céu, enquanto que os discípulos jaziam com suas faces na terra".

10Em seguida chamaram a Finees, sacerdote, e perguntaram-lhe tambĂ©m: "Como contemplaste a ascensĂŁo de Jesus?" E ele falou de maneira semelhante. Interrogaram tambĂ©m a Ageu, que respondeu de maneira semelhante. EntĂŁo ele disse ao conselho: "EstĂĄ contido na lei de MoisĂ©s: "Da boca de dois ou trĂȘs toda a palavra serĂĄ firme'.

11E o mestre Buthem acrescentou: "Estå escrito na lei: "E passeava Enoch com Deus, e jå não existe, porque Deus levou-o consigo'." Também o mestre Jairo disse: "Também ouvimos falar da morte de Moisés, mas não o vimos, pois estå escrito na lei do Senhor: "E Moisés morreu pela palavra do Senhor e ninguém jamais conheceu, até o dia de hoje, seu sepulcro'.

12E o mestre Levi disse: "E o que significa o testemunho que o mestre Simeão deu quando viu Jesus: "Eis aqui que este estå colocado para a queda e ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição'?" E o mestre Isaac disse: "Estå escrito na lei: "Eis aqui que eu envio meu mensageiro diante de ti, o qual preceder-te-å para guardar-te em todo o bom caminho, pois meu nome é nele invocado'." Então Anås e Caifås disseram: "Haveis citado justamente o escrito na lei de Moisés, que ninguém viu a morte de Enoch e que ninguém mencionou a morte de Moisés.

CapĂ­tulo 12

1Mas Jesus falou a Pilatos, e nĂłs sabemos que o vimos receber bofetadas e cusparadas no rosto; que os soldados cingiram-lhe uma coroa de espinhos; que foi flagelado; que recebeu sentença da parte de Pilatos; que foi crucificado no CalvĂĄrio em companhia de dois ladrĂ”es; que se lhe deu de beber fel e vinagre; que o centuriĂŁo Longinos abriu seu flanco com uma lança; que JosĂ©, nosso honorĂĄvel pai, pediu seu corpo e que, como disse, ressuscitou; que, como dizem os trĂȘs mestres, viram-no elevar-se ao cĂ©u; e, finalmente, que o mestre Levi deu testemunho do que o mestre SimeĂŁo disse, e que disse: "Eis aqui este que estĂĄ colocado para a queda e ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição'.

2E todos os doutores disseram em unĂ­ssono ao povo inteiro de Israel: "Se esta ira provĂ©m do Senhor e Ă© admirĂĄvel aos nossos olhos, conhecei sem dar margem a dĂșvidas, Ăł casa de Israel, que estĂĄ escrito: "Maldito todo aquele que estĂĄ preso a um pedaço de madeira'. E outro lugar da escritura menciona: "Deuses que nĂŁo fizeram o cĂ©u e a terra perecerĂŁo'.

3E os sacerdotes e levitas disseram entre si: "Se sua memória perdurar até Sommos (também conhecido pelo nome de Jobel), sabei que o seu domínio serå eterno e que farå nascer para si um novo povo". Então os arquissinagogos, sacerdotes e levitas exortaram todo o povo de Israel dizendo: "Maldito aquele que adorar qualquer obra saída de mãos humanas e maldito aquele que adorar as criaturas tendo ao lado o Criador".

4E o povo em massa respondeu: "Amém, amém". Depois a multidão entoou um hino ao Senhor desta forma: "Bendito o Senhor, que proporcionou descanso ao povo de Israel de acordo com o que havia prometido; não caiu no vazio nem uma só de todas as boas coisas que disse ao seu servo Moisés.

5Que siga ao nosso lado o Senhor nosso Deus da mesma maneira que estava do lado dos nossos pais. Que não nos entregue à perdição para que possamos inclinar nosso coração até Ele, para que possamos seguir todos os seus caminhos e para que possamos praticar os preceitos e critérios que apregoou aos nossos pais.

6Naquele dia o Senhor serå rei sobre toda a terra; não haverå outro ao seu lado; seu nome serå unicamente Senhor, nosso rei. Ele nos salvarå. Não hå semelhante a ti, Senhor; sois grande, Senhor, e grande o teu nome. Cura-nos pela tua virtude e seremos curados; salva-nos, Senhor, e seremos salvos, pois somos tua pequena parte e tua herança.

7O Senhor não abandonarå jamais o seu povo pela magnitude do seu nome, pois começou a fazer de nós o seu povo. E todos depois, em coro, cantaram o hino e cada qual foi para casa dando graças a Deus, porque aquele dia permanece por todos os séculos dos séculos. Amém.

CapĂ­tulo 13

DESCIDA DE CRISTO AO INFERNO
1Dois textos apĂłcrifos constituem o Evangelho de Nicodemus: Atos de Pilatos e Descida de Cristo ao Inferno. Em Ă© seqĂŒĂȘncia do outro e o completa, embora escritos em Ă©pocas diferentes. Justino, em 150, menciona em seus escritos um texto chamado Atos de PĂŽncio Pilatos, narrando os acontecimentos posteriores Ă  Crucificação.

2EntĂŁo JosĂ© disse: "E por que vos admirai de que Jesus tenha ressuscitado? O admirĂĄvel nĂŁo Ă© isto; o admirĂĄvel Ă© que nĂŁo somente ele ressuscitou, como tambĂ©m devolveu a vida a um grande nĂșmero de mortos, que hĂĄ muito nĂŁo sĂŁo vistos em JerusalĂ©m. E se nĂŁo conheceis os outros, conheceis sim, pelo menos, SimeĂŁo, aquele que tomou Jesus nos braços, assim como tambĂ©m seus dois filhos, que igualmente foram ressuscitados.

3Pois a esses, hå pouco tempo, nós mesmos demos sepultura, e agora podem contemplar seus sepulcros abertos e vazios, e estão vivos e morando em Arimatéia". Enviaram, então, algumas pessoas e comprovaram que os sepulcros estavam abertos e vazios. José então disse: "Vamos a Arimatéia e veremos se os encontramos". E levantando-se os pontífices Anås, Caifås, José, Nicodemus, Gamaliel, e outros em sua companhia, foram até Arimatéia onde encontraram aqueles a quem José se havia referido. Fizeram, então, oraçÔes e abraçaram-se mutuamente.

4Depois regressaram a Jerusalém em sua companhia e os levaram até a sinagoga. E, ali postos, fecharam as portas, colocaram o Antigo Testamento dos judeus no cento e os pontífices disseram-lhes: "Queremos que jureis pelo Deus de Israel e por Adonai, para que assim digais a verdade, de como haveis ressuscitado e quem é aquele que vos tirou de entre os mortos".

5Quando os ressuscitados ouviram isto, fizeram sobre suas faces o sinal da cruz e disseram aos pontífices: "Dai-nos papel, tinta e pena". Trouxeram-lhes e, sentando-se, escreveram da seguinte maneira: Oh, Senhor Jesus Cristo, ressurreição e vida do mundo! Dai-nos a graça para fazermos o relato da tua ressurreição e das maravilhas que fizeste no Inferno.

6Nós eståvamos, então, no Inferno em companhia de todos os que haviam morrido desde o princípio. E na hora da meia-noite amanheceu naquelas trevas, algo assim como a luz do sol, e com o seu brilho fomos todos iluminados e pudemos ver-nos uns aos outros. E ao mesmo tempo o nosso pai Abraão, os patriarcas e profetas e todos em uníssono regozijaram-se e disseram entre si: "Esta luz provém de um grande resplendor".

7Então o profeta Isaías, ali presente, disse: "Esta luz provém do Pai, do Filho e do Espírito Santo; sobre ela ou profetizei, quando ainda estava na terra, desta maneira: "Terra de Abulão e terra de Neftali, o povo que estava sumido nas trevas viu uma grande luz'.

8Depois surgiu do meio um asceta do deserto, e os patriarcas perguntaram-lhe: "Quem sois?" Ele respondeu: "Eu sou JoĂŁo, o Ășltimo dos profetas, aquele que preparou os caminhos do Filho de Deus e pregou a penitĂȘncia ao povo para remissĂŁo dos pecados. O Filho de Deus veio ao meu encontro e, ao vĂȘ-lo de longe, disse ao povo: "Eis aqui o cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo'.

9E com minha prĂłpria mĂŁo batizei-o no rio JordĂŁo e vi o EspĂ­rito Santo em forma de pomba que descia sobre ele. E ouvi tambĂ©m a voz de Deus Pai, que assim dizia: "Este Ă© meu Filho, o amado, o que me agrada'. E por isso mesmo tambĂ©m enviou-me a vĂłs para anunciar-vos a chegada do Filho de Deus unigĂȘnito a este lugar, a fim de que aquele que acreditar nele seja salvo, e quem nĂŁo acreditar, seja condenado.

10Por isto recomendo a todos que, enquanto o virdes, adoreis somente a ele, porque esta Ă© a Ășnica oportunidade de que dispondes para fazer penitĂȘncia pelo culto que rendestes aos Ă­dolos enquanto vivĂ­eis no mundo vil de antes e pelos pecados que cometestes; isto jĂĄ nĂŁo poderĂĄ ser feito em outra ocasiĂŁo. Ao ouvir o primeiro a ser criado e pai de todos a instrução que JoĂŁo estava dando aos que se encontravam no inferno, disse AdĂŁo ao seu filho Seth:

11"Meu filho, quero que digas aos pais do gĂȘnero humano e aos profetas para onde eu o enviei quando caĂ­ no transe da morte". Seth disse: "Profetas e patriarcas, escutai: meu pai AdĂŁo, a primeira das criaturas, caiu uma vez em perigo de morte e enviou-me para fazer oraçÔes a Deus muito prĂłximo da porta do paraĂ­so, para que me fizesse chegar por meio de um anjo atĂ© a ĂĄrvore da misericĂłrdia, de onde haveria de tomar do Ăłleo, para com ele ungir meu pai para que assim ele pudesse recuperar-se de sua doença. Assim fiz.

12E, depois de fazer minha oração, um anjo do Senhor veio e disse-me: "Que pedes, Seth? Buscas o óleo que cura os doentes ou a årvore que o distila para a doença do teu pai? Isto não pode ser encontrado agora. Vai, pois, e diz ao teu pai que depois de cinco mil e quinhentos anos, a partir da criação do mundo, haverå de descer o Filho de Deus humanizado; Ele encarregar-se-å de ungi-lo com este óleo, e teu pai levantar-se-å; e, além disso, purificå-lo-å, tanto a ele quanto aos seus descendentes com ågua e com o Espírito Santo; e então, sim, ver-se-å curado de todas as doenças, porém, por agora, isto é impossível'."

13Os patriarcas e profetas que ouviram isto alegraram-se grandemente. E, enquanto estavam todos se regozijando desta forma, Satanås, o herdeiro das trevas, veio e disse ao Inferno: "ó tu, devorador insaciåvel de todos, ouve minhas palavras: anda por aí um certo judeu, de nome Jesus, que chama-se a si mesmo Filho de Deus; mas, como é um homem puro, os judeus deram-lhe a morte na cruz, graças à nossa cooperação. Agora, então, que acaba de morrer, estejas preparado para que possamos colocå-lo aqui bem aprisionado; pois eu sei que não é mais do que um homem, e ouvi-o até dizer: "Minh'alma estå triste por causa da morte'.

CapĂ­tulo 14

1Sabes, além disso, que ele me causou muitos danos no mundo enquanto vivia entre os mortais, pois aonde quer que eu encontrasse meus servos, ele os perseguia; e todos os homens que eu deixava mutilados, cegos, coxos, leprosos ou algo semelhante, ele os curava somente com sua palavra; até muitos deles para os quais eu jå havia preparado sepultura, ele fazia reviver somente com sua palavra".

2EntĂŁo disse o Inferno: "E Ă© ele tĂŁo poderoso assim que pode fazer tais coisas somente com sua palavra? E, sendo ele assim, tu porventura te atreves a enfrentĂĄ-lo? Eu creio que diante de alguĂ©m como ele, ninguĂ©m poderĂĄ opor-se. E o que disseste tĂȘ-lo ouvido exclamar, expressando seu temor diante da morte, disse-o sem dĂșvida, para rir-se de ti e enganar-te, para poder desafiar-te com seu poder.

3E entĂŁo, ai! ai de ti por toda a eternidade!" Ao que SatanĂĄs respondeu: "Ăł Inferno, devorador insaciĂĄvel de todos! Sentiste tanto medo assim ao ouvir falar de nosso inimigo comum? Eu nunca lhe tive medo, e bem que aticei os judeus, e eles o crucificaram e deram-lhe de beber fel com vinagre.

4Prepara-te, então, para que quando venha possa subjugå-lo firmemente". O Inferno respondeu: "Herdeiro das trevas, filho da perdição, caluniador, acabas de dizer-me que ele fazia reviver somente com sua palavra a muitos dos que tu havia preparado para a sepultura; se, pois, ele livrou outros do sepulcro, como e com que forças nós seremos capazes de subjugå-lo? Hå pouco tempo devorei um cadåver chamado Låzaro; porém, pouco depois, um dos vivos, somente com sua palavra, arrancou-o à força das minhas entranhas.

5E penso que ele Ă© o mesmo ao qual tu te referes. Se, pois, viermos a recebĂȘ-lo aqui, tenho medo de que corramos perigo tambĂ©m com relação aos demais porque deves saber que vejo agitados todos os que devorei desde o princĂ­pio, e sinto dores na minha barriga. E LĂĄzaro, aquele que me foi arrebatado anteriormente, nĂŁo Ă© um bom pressĂĄgio, pois voou para longe de mim, nĂŁo como um morto mas sim como uma ĂĄguia: tĂŁo rapidamente arremessou-o fora da terra.

6Assim, pois, conjuro-te por tuas artes e pelas minhas, nĂŁo o tragas aqui. Tenho para mim que o fato de ele ter-se apresentado em nossa mansĂŁo quer dizer que todos os mortos cometeram pecado. E considera que, pelas trevas que possuĂ­mos, se o trouxeres aqui, nĂŁo me restarĂĄ nem um sĂł dos mortos".

7Enquanto Satanås e o Inferno diziam tais coisas entre si, produziu-se uma grande voz como um trovão, que dizia: "Elevai, ó príncipes, vossas portas; descerrai, ó portas eternas, e o Rei da Glória entrarå". Quando o Inferno ouviu isto, disse a Satanås: "Sai, se és capaz, e enfrenta-o". E Satanås saiu. Depois o Inferno disse para seus demÎnios: "Trancai bem e fortemente as portas de bronze e os ferrolhos de ferro; guardai minhas fechaduras e examinai tudo o que estå em pé, pois, se aquele entrar aqui, ai! apoderar-se-å de nós".

8Os pais que ouviram isto começaram a fazer-lhe zombarias dizendo: "Comilão insaciåvel, abre para que o Rei da Glória entre". E o profeta Davi disse: "Não sabes, cego, que estando eu ainda no mundo, fiz esta profecia: "Elevai, ó príncipes, vossas portas!?'" Isaías por sua vez disse: "Eu, prevendo isto pela virtude do Espírito Santo, escrevi: "Os mortos ressuscitarão e os que estão no sepulcro levantar-se-ão e os que vivem na terra alegrar-se-ão'; e onde estão, ó morte, teus grilhÔes? Aonde, Inferno, a tua vitória?" Então, de novo veio uma voz que dizia: "Levantai as portas". O Inferno, que ouviu repetir esta voz, disse como se não se apercebesse: "Quem é este Rei da Glória?" E os anjos do Senhor responderam: "O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha".

9E num instante, à convocação de conjuração desta voz, as portas de bronze se tornaram pequeninas e os ferrolhos de ferro ficaram reduzidos a pedaços, e todos os defuntos acorrentados viram-se livres de suas correntes, e nós dentre eles. E entrou o Rei da Glória na figura humana, e todos os antros escuros de Inferno foram iluminados.

10Em seguida o Inferno começou a gritar: "Fomos vencidos, ai de nĂłs! Mas quem Ă©s tu, que possuis tal poder e força? Quem Ă©s tu, que vens aqui sem pecado? Aquele que Ă© pequeno na aparĂȘncia e pode grandes coisas, o humilde e o excelso, o servo e o senhor, o soldado e o rei, aquele que tem poder sobre os vivos e os mortos? Foste pregado Ă  cruz e colocado no sepulcro, e agora ficaste livre e desfizeste nossa força.

11EntĂŁo, por conseguinte, Ă© tu Jesus, de quem nos falava o grande sĂĄtrapa SatanĂĄs, que pela cruz e pela morte tornar- te-ias dono de todo o mundo?" EntĂŁo o Inferno encarregou-se de SatanĂĄs e disse-lhe: "Belzebu, herdeiro do fogo e da tempestade, inimigo dos santos, que necessidade tinhas de providenciar para que o Rei da GlĂłria fosse crucificado e que viesse depois aqui e nos despojasse? Vira-te e olha que em mim nĂŁo ficou nenhum morto, pois que tudo o que ganhaste pela ĂĄrvore da ciĂȘncia puseste a perder pela cruz.

12Todo o teu gozo converteu-se em tristeza, e a pretensĂŁo de matar o Rei da GlĂłria provocou tua prĂłpria morte. E, uma vez que te recebi com a recomendação de subjugar-te fortemente, aprenderĂĄs com a prĂłpria experiĂȘncia quanto mal sou capaz de infligir-te. Ó chefe dos diabos, princĂ­pio da morte, raiz do pecado, final de toda a maldade, que encontraste de mal em Jesus para buscar sua perdição? Como tiveste coragem para perpetrar um crime tĂŁo grande? Por que te ocorreu fazer um varĂŁo como este descer atĂ© estas trevas, pois as despojou de todos os que morreram desde o princĂ­pio?" Enquanto o Inferno admoestava assim SatanĂĄs, o Rei da GlĂłria estendeu sua mĂŁo direita e com ela pegou e levantou o primeiro pai AdĂŁo.

CapĂ­tulo 15

1Depois dirigiu-se aos demais e disse-lhes: "Vinde aqui comigo todos os que foram feridos de morte pelo madeiro que me tocou, pois eis aqui que eu vos ressuscito pela madeira da cruz". E com isto levou todos para fora. E o primeiro pai Adão apareceu transbordante de gozo e dizia: "Agradeço, Senhor, tua magnanimidade por me haveres tirado do mais profundo Inferno".

2E também todos os profetas e santos disseram: "Damos-te graças, ó Cristo Salvador do mundo, porque tiraste nossa vida da corrupção". Depois de assim haverem falado, o Salvador abençoou Adão na testa com o sinal da cruz. Depois fez a mesma coisa com os patriarcas, profetas, mårtires e progenitores.

3E a seguir pegou-os a todos e deu um salto do Inferno. E enquanto ele caminhava, os santos pais seguiam-no cantando e dizendo: "Bendito aquele que vem em nome do Senhor. Aleluia! Sejam para ele os louvores de todos os santos". Ia, entĂŁo, a caminho do paraĂ­so levando pela mĂŁo o primeiro pai AdĂŁo.

4E ao chegar, entregou-o, assim como os demais justos, ao arcanjo Micael. E quando entraram pela porta do paraíso, saíram dois anciãos, aos quais os santos pais perguntaram: "Quem sois vós, que não viestes a morte nem descestes ao Inferno, mas viveis de corpo e alma no paraíso?" Um deles respondeu e disse: "Eu sou Enoch, aquele que agradou ao Senhor e foi trazido aqui por Ele; este é Elias e Tesbita; ambos seguiremos vivendo até a consumação dos séculos; então seremos enviados por Deus para enfrentar o anticristo e ser mortos por ele, e ressuscitar no terceiro dia, para depois sermos arrebatados pelas nuvens ao encontro do Senhor".

5Enquanto eles assim se expressavam, veio outro homem de aparĂȘncia humilde, que levava ainda sobre os seus ombros uma cruz. Os santos pais disseram-lhe: "Quem Ă©s tu, que tens o aspecto de ladrĂŁo, e que Ă© essa cruz que leva sobre teus ombros?" Ele respondeu: "Eu, segundo dizes, era ladrĂŁo e assaltante no mundo e por isso os judeus prenderam-me e entregaram-me Ă  morte na cruz juntamente com Nosso Senhor Jesus Cristo.

6E enquanto ele pendia na cruz, ao ver os prodĂ­gios que se sucederam, acreditei e roguei a ele dizendo: "Senhor, quando reinares, nĂŁo te esqueças de mim'. E ele logo disse-me: "Em verdade em verdade te digo, hoje mesmo estarĂĄs comigo no paraĂ­so'. Vim, pois, com minha cruz nas costas atĂ© o paraĂ­so e, encontrando o arcanjo Micael, disse-lhe: Nosso Senhor Jesus, aquele que foi crucificado, enviou-me aqui; leva-me, entĂŁo, atĂ© a porta do Éden'.

7E quando a espada de fogo viu o sinal da cruz, abriu-me a porta e entrei. Depois o arcanjo disse-me: "Espera um momento, jĂĄ que tambĂ©m deve ir o primeiro pai da raça humana, AdĂŁo, em companhia dos justos, para que eles tambĂ©m entrem. E agora, ao vĂȘ-los, saĂ­ ao vosso encontro'."

8Quando os santos ouviram isto, exclamaram em voz alta da seguinte maneira: "Grande Ă© o nosso Senhor e grande Ă© o seu poder". Tudo isto nĂłs vimos e ouvimos, os dois irmĂŁos gĂȘmeos, que fomos tambĂ©m enviados pelo arcanjo Micael e designados para pregar a ressurreição do Senhor antes de ir atĂ© o JordĂŁo e sermos batizados. Para ali fomos e fomos batizados juntamente com outros defuntos tambĂ©m ressuscitados; depois viemos a JerusalĂ©m e celebramos a PĂĄscoa da ressurreição.

9Mas agora, na impossibilidade de permanecermos aqui, vamo-nos. Que a caridade, então, de Deus Pai e a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e a comunicação dos Espírito Santo estejam convosco". E, uma vez isto escrito e fechados os livros, deram a metade aos pontífices e a outra metade a José e a Nicodemus. Eles, por sua vez, desapareceram imediatamente para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

10EntĂŁo os mestres Addas, Finnes e Égias, trĂȘs varĂ”es que vieram da GalilĂ©ia para testemunhar que haviam visto Jesus ser arrebatado ao cĂ©u, levantaram-se em meio Ă  multidĂŁo de chefes dos judeus e disseram na presença dos sacerdotes e levitas reunidos em conselho: "Senhores, quando Ă­amos da GalilĂ©ia ao JordĂŁo, veio ao nosso encontro uma grande multidĂŁo de homens vestidos de branco que haviam morrido jĂĄ hĂĄ algum tempo.

11Dentre eles reconhecemos Karino e LĂȘucio; e quanto eles se aproximaram de nĂłs e nos beijamos mutuamente, jĂĄ que haviam sido nossos amigos, perguntamo-lhes: "Dizei-nos, irmĂŁos e amigos, que sĂŁo esta alma e este corpo, e quem sĂŁo essas pessoas com quem caminhais, e como viveis no corpo, sendo que jĂĄ faz tempo que morrestes?"

CapĂ­tulo 16

1Eles responderam desta maneira: "Ressuscitamos dos infernos com Cristo e Ele tirou- nos de entre os mortos. E saibas que a partir de agora ficam destruídas as portas da morte e das trevas, e as almas dos santos foram tiradas dali e subiram ao céu com Cristo Senhor Nosso.

2O Senhor em pessoa mandou-nos que, durante um certo tempo vagåssemos pelas margens do Jordão e pelos montes, entretanto sem que nos deixåssemos ver e sem que falåssemos com ninguém, mas somente com aqueles que ele permitisse. Neste momento, não nos seria possível nem falar nem nos deixar ver por vós se não nos tivesse sido permitido pelo Espírito Santo".

3Diante destas palavras, a multidĂŁo que assistia ao conselho ficou assustada, presa de temor e de tremor, e dizia: "Por ventura serĂĄ verdade o que estes dois galileus testemunham?" EntĂŁo AnĂĄs e CaifĂĄs dirigiram-se ao conselho nestes termos: "Descobrir-se- ĂĄ imediatamente o que estĂĄ relacionado com todas estas coisas de que estes deram testemunho antes e depois: se se comprovar ser verdade que Karino e LĂȘucio permanecem vivos em seus corpos, e se nos for permitido vĂȘ-los com nossos prĂłprios olhos, significa que Ă© verdade o que eles testemunham com todos os detalhes, e, quando os encontrarmos, informar-nos-ĂŁo com certeza de tudo. Caso contrĂĄrio, porĂ©m, sabei que tudo Ă© pura farsa".

4Puseram-se, entĂŁo, a deliberar e concordaram em escolher alguns homens idĂŽneos e tementes a Deus, que os sabiam mortos e os conheciam a sepultura em que haviam sido colocados, para que fizessem diligentes pesquisas e comprovassem se aquilo era, na verdade, tal como haviam dito. Assim, pois, foram lĂĄ quinze homens que haviam presenciado a sua morte e haviam estado pessoalmente no lugar da sepultura, e haviam visto seus sepulcros.

5Examinaram, entĂŁo, e os encontraram abertos, bem como outros tantos, sem que pudessem ver sinais de seus ossos ou de suas cinzas. E voltaram com grande surpresa, relatando o que haviam visto. EntĂŁo a sinagoga inteira turbou-se, cheia de uma angĂșstia terrĂ­vel, e disseram entre si: "Que haveremos de fazer?" AnĂĄs e CaifĂĄs disseram: "Dirigimo-nos ao lugar onde eles estĂŁo, e enviemos atĂ© eles homens de nobreza, intercessores que lhes supliquem que se dignem vir a nĂłs".

6Enviaram, entĂŁo, Nicodemus, JosĂ© e os trĂȘs mestres galileus que os haviam visto, com o pedido de que fizessem a gentileza de vir atĂ© eles. Puseram-se, entĂŁo, a caminho e andaram por todos os arredores de JordĂŁo e dos montes. Mas, nĂŁo os tendo encontrado, jĂĄ estavam tomando o caminho de volta. Quando, de repente, avistaram uma grande multidĂŁo, como de uns doze mil homens que haviam ressuscitado com o Senhor e que desciam do monte Amalech.

7Eles reconheceram muitos deles, porĂ©m nĂŁo foram capazes de dirigir-lhes uma sĂł palavra, com medo da visĂŁo angĂ©lica, e contentaram-se em vĂȘ-los de longe e ouvi-los cantando hinos e dizendo: "O Senhor ressuscitou de entre os mortos, como havia dito; alegremo-nos e regozijemo-nos todos, porque ele reina eternamente". EntĂŁo os que foram buscĂĄ-los ficaram mudos de admiração e receberam deles o conselho de ir procurar Karino e LĂȘucio em suas prĂłprias casas.

8Levantaram-se, então, e foram buscå-los em suas casas, onde os encontraram entregues à oração. E, entrando no lugar em que estavam, caíram com os rostos por terra e assim que se cumprimentaram, levantaram-se e disseram: "Amigos de Deus, ao ouvir que havíeis ressuscitado de entre os mortos, a assembléia dos judeus enviou-nos a vós para pedir-vos encarecidamente que vos dirijais até eles, para que possamos juntos conhecer as maravilhas divinas que tiveram lugar à nossa volta em nossos tempos".

9Eles então levantaram-se imediatamente, movidos pela inspiração divina, e, em sua companhia, entraram na sinagoga. E a assembléia dos judeus, juntamente com os sacerdotes, passaram às suas mãos os livros da lei e os conjuraram pelo Deus Heloi e Deus Adonai e pela lei e pelos profetas desta maneira: "Dizei-nos como haveis ressuscitado de entre os mortos e o que são estas maravilhas que tiveram lugar em nossos tempos, maravilhas de que jamais ouvimos falar em qualquer outro tempo. Sabei, então, que o pavor e a estupefação atingiram nossos ossos e que a terra moveu-se sob nossos pés, por havermos juntado nossa vontade para derramar sangue justo e santo".

10EntĂŁo, Karino e LĂȘucio fizeram-lhes sinais com as mĂŁos para que lhes descem um rolo de papel e tinta. E assim o fizeram porque o EspĂ­rito Santo nĂŁo lhes permitiu falar com eles. Deram a cada um papel e os separaram em diferentes salas. E eles entĂŁo, depois de fazerem o sinal da cruz com os dedos, começaram a escrever cada um seu prĂłprio rolo. E, quando terminaram, exclamaram a uma sĂł voz, de suas salas: "AmĂ©m".

CapĂ­tulo 17

1Em seguida Karino levantou-se e deu seu papel para AnĂĄs, enquanto que LĂȘucio fez o mesmo com CaifĂĄs. E depois de se despedirem, saĂ­ram e voltaram aos seus sepulcros. EntĂŁo, AnĂĄs e CaifĂĄs abriram cada um o seu volume e começaram a ler em segredo. O povo, porĂ©m, sentindo-se ofendido, exclamou em unĂ­ssono: "Lede esses escritos em voz alta, e, depois, haveremos de conservĂĄ-los para que a verdade divina nĂŁo venha a ser adulterada por indivĂ­duos imundos e ardilosos, levados pela obsessĂŁo".

2EntĂŁo AnĂĄs e CaifĂĄs, cheios de tremor, entregaram o rolo de papel ao mestre Addas, ao mestre Finees e ao mestre Égias, que haviam vindo da GalilĂ©ia com a notĂ­cia de que Jesus havia sido elevado ao cĂ©u; e todo o povo confiou neles para que lessem este escrito. E leram o papel, que continha o seguinte:

3"Senhor Jesus Cristo, permite que eu, Karino, exponha as maravilhas que operaste nos Infernos. Enquanto nĂłs nos encontrĂĄvamos presos nos Infernos, desaparecidos nas trevas e nas sombras da morte, vimo-nos de repente iluminados por uma grande luz e o Inferno e as portas da morte estremeceram. EntĂŁo fez-se ouvir a voz do Filho do AltĂ­ssimo, como se fosse a voz de um grande trovĂŁo que, dando um forte brado, disse: "Deixai que se abram, Ăł prĂ­ncipes, vossas portas; descerrai as portas da eternidade, pois sabeis que Cristo Senhor, Rei da GlĂłria, virĂĄ para entrar.

4"Então Satanås, o príncipe da morte, ouvindo o brado, fugiu aterrorizado para dizer aos seus subordinados e aos Infernos: "Meus ministros e todos os Infernos, vinde todos aqui, fechai vossas portas, colocai os ferrolhos, lutai com denodo e resisti, não aconteça que, sendo donos das correntes, venhamos a ficar presos nelas'.

5Então, todos os seus ímpios satélites, perturbados, puseram-se apressadamente a fechar as portas da morte, a verificar as fechaduras e os ferrolhos, e a empunhar com firmeza todas as suas armas, e a lamentar com voz sinistra e horripilante.

6"Então Satanås disse ao Inferno: "Prepara-te para receber alguém que vou trazer-te'. Mas o Inferno assim respondeu a Satanås: "Esta voz não foi outra coisa senão o brado do Filho do Pai Altíssimo, pois diante das suas palavras a terra e os lugares do Inferno entraram em comoção; penso que tanto eu quanto minhas ligaçÔes ficaram agora patentes e a descoberto.

7Mas afirmo-te, ó Satanås, cabeça de todos os males, por tua força e pela minha, que não o tragas a mim, a não ser que, querendo pegå-lo, venhamos nós a ser presos por ele. Pois se somente com sua voz minha fortaleza ficou de tal forma desfeita, que fazer quando estiver em sua presença?' "Por sua vez, Satanås, o príncipe da morte, assim respondeu: "Por que gritas? Não tenhas medo, perversíssimo amigo de outrora, porque fui eu quem incitou o povo judeu contra ele e graças a mim foi ferido com bofetadas, e eu perpetrei sua traição através de um dos seus.

8Além disso, é um homem muito temeroso diante da morte, posto que, deixando-se oprimir pela força do temor, disse: "Minh'alma estå triste até a morte'. E eu mesmo trouxe até ela, jå que agora estå dependurado na cruz'. "Então o Inferno lhe disse: "Se é ele quem somente com o poder do seu verbo fez Låzaro voar das minhas entranhas como uma åguia, morto jå hå quatro dias, esse não é um homem na sua humanidade, mas sim Deus na sua majestade. Suplico-te, então, que não mo tragas aqui'.

9SatanĂĄs contestou: "Entretanto, prepara-te; nĂŁo tenhas medo. Agora que jĂĄ estĂĄ dependurado na cruz, nĂŁo posso fazer outra coisa'. EntĂŁo o Inferno respondeu a SatanĂĄs da seguinte maneira: "Se, entĂŁo, nĂŁo Ă©s capaz de fazer outra coisa, tua perdição estĂĄ perto. Em Ășltima instĂąncia, eu ficarei, sim, abatido e sem honra, mas tu serĂĄs crucificado sob meu domĂ­nio'. "Enquanto isso, os santos de Deus estavam escutando a contenda entre SatanĂĄs e o Inferno; eles ainda nĂŁo se reconheciam, mas estavam a ponto de começar a se conhecer.

10E nosso pai Adão, por sua vez, assim respondeu a Satanás: "Ó príncipe da morte, por que tremes e te amedrontas? Olha, o Senhor virá e irá destruir agora mesmo todas as tuas criaturas, e tu serás amarrado por ele e ficarás preso por toda a eternidade'. "Então, todos os santos, ao ouvir a voz de nosso pai Adão e ao ver com que integridade respondia a Satanás, alegraram-se e sentiram-se reconfortados; em pouco tempo, puseram- se a andar em massa ao lado de Adão e reuniram-se a ele.

11E nosso pai Adão, ao olhar mais atentamente toda aquela multidão, admirava-se de ver que todos haviam sido gerados por ele neste mundo. E então, depois de abraçar todos os que estavam ao seu redor, disse ao seu filho Seth, derramando amargas lågrimas: "Meu filho Seth, conta aos santos patriarcas e profetas o que o guardião do paraíso te disse quando caí doente e enviei-te para que me trouxesses um pouco de óleo da misericórdia e me ungisses com ele'.

12"E Seth disse: "Quando me enviaste Ă  porta do paraĂ­so, orei e roguei ao Senhor com lĂĄgrimas e chamei o guardiĂŁo do paraĂ­so para que me desse um pouco desse Ăłleo. EntĂŁo o arcanjo Micael saiu e disse-me: "Seth, por que choras? A propĂłsito, saibas que teu pai AdĂŁo nĂŁo receberĂĄ este Ăłleo de misericĂłrdia, senĂŁo depois de muitas geraçÔes se haverem passado. Pois descerĂĄ do cĂ©u ao mundo o Filho de Deus e serĂĄ batizado por JoĂŁo no rio JordĂŁo; aĂ­ teu pai receberĂĄ este Ăłleo de misericĂłrdia, juntamente com todos os que crĂȘem nele; e o reino dos que acreditaram nele permanecerĂĄ pelos sĂ©culos'.

13"Quando os santos ouviram isto exultaram. E um deles ali presente, chamado Isaías, exclamou em altos brados: "Pai Adão e todos os presentes, escutai minhas palavras: enquanto vivia eu na terra, inspirado pelo Espírito Santo compus um cùntico profético sobre esta luz, dizendo: "O povo que permanecia nas trevas viu uma grande luz, amanheceu a luz para os habitantes da região das sombras da morte'. Ao ouvir isto, Adão e todos os presentes o interrogaram: "Quem és tu? Porque é verdade o que estås dizendo'. E ele respondeu: "Eu me chamo Isaías'.

CapĂ­tulo 18

1"Então alguém que se assemelhava a um religioso aproximou-se. E perguntaram-lhe dizendo: "Quem és tu, que levas tais sinais em teu corpo?' E ele respondeu com firmeza: "Eu sou João Batista, a voz e o profeta do Altíssimo. Eu caminhei diante da face do próprio Senhor para converter os desertos e os caminhos åsperos em veredas planas. Com o meu dedo, apontei os jerosolimitas e glorifiquei o cordeiro do Senhor e o Filho de Deus. Eu o batizei no rio Jordão e pude ouvir a voz do Pai que trovejava do céu sobre ele e proclamava: "Este é meu Filho amado, nele regozijo-me'.

2Eu também ouvi dele a promessa de que ele próprio haveria de descer aos Infernos'. "O pai Adão ao ouvir isto exclamou com voz grave: "Aleluia', que significa: o Senhor estå chegando. Depois, outro dos que estavam presentes e que se distinguia por uma espécie de insígnia imperial, chamado Davi, pÎs-se a falar, dizendo: "Eu, vivendo ainda na terra, revelei ao povo os mistérios da misericórdia de Deus, profetizando os futuros prazeres que haveriam de vir com o passar dos séculos, da seguinte maneira: "Dai glória a Deus por suas misericórdias e suas maravilhas aos filhos dos homens, porque despedaçou as portas de bronze e arrebentou os ferrolhos de ferro'.

3Então os santos patriarcas e profetas começaram a se reconhecer e a falar, um por um, de suas profecias. O santo profeta Jeremias, examinando suas profecias, dizia aos patriarcas o profetas: "Vivendo na terra, profetizei sobre o Filho de Deus, que apareceu na terra e conversou com os homens'. "Então todos os santos cheios de alegria por causa da luz do Senhor, por ver o pai Adão e pela resposta de todos os patriarcas e profetas, exclamaram: "Aleluia, bendito o que vem em nome do Senhor', de maneira que diante dessa exclamação, Satanås encheu-se de pavor e procurou um caminho para fugir.

4Mas isto não lhe era possível, porque o Inferno e seus satélites tinham-no subjugado o sitiado e diziam-lhe: "Por que tremes? De nenhuma maneira permitiremos que saias daqui, mas haverås de receber isto como bem merecido, das mãos daquele a quem atacavas sem trégua; caso contrårio, saibas que serås acorrentado por ele e submetido à minha custódia'.

5"E novamente ressoou a voz do Filho do Pai AltĂ­ssimo, como o estrondo de um grande trovĂŁo, que dizia: "Levantai vossas portas, Ăł prĂ­ncipes, e elevai-vo, Ăł portas eternas, que o Rei da GlĂłria vai entrar'. EstĂŁo SatanĂĄs e o Inferno puseram-se a gritar assim: "Quem Ă© esse Rei da GlĂłria?' E a voz do Senhor lhes respondeu: "O Senhor forte e poderoso, o Senhor forte na batalha'. "Depois de ouvir-se esta voz, veio um homem cujo aspecto era como o de um ladrĂŁo, com uma cruz Ă s costas, que gritava do lado de fora dizendo: "Abri a porta para que eu entre". SatanĂĄs entĂŁo entreabriu-a e introduziu-o no recinto, fechando a porta atrĂĄs dele.

6E todos os santos viram-no cheio de luz e disseram-lhe: "Teu aspecto exterior é de ladrão; diga-nos, que é isso que levas em tuas costas?' Ele humildemente respondeu e disse: "Na verdade, fui mesmo um ladrão, e os judeus dependuraram-me na cruz com meu Senhor Jesus Cristo, Filho do Pai Altíssimo. Enfim, adiantei-me, mas ele vem imediatamente atrås de mim'. "O santo Davi, então, encheu-se de cólera contra Satanås e bradou: "Abre tuas portas, ó asqueroso, para que o Rei da Glória entre'. E todos os santos de Deus também se insurgiram contra Satanås e queriam agarrå-lo e destruí-lo.

7E de novo ouviu-se um grito que vinha de dentro: "Descerrai vossas portas, ó príncipes, e elevai-vos, ó portas eternas, que o Rei da Glória vai entrar'. E o Inferno e Satanås novamente perguntaram àquela voz clara, dizendo" "Quem é este Rei da Glória?' E aquela voz maravilhosa respondeu: "O Senhor das virtudes, ele é o Rei da Glória'. "E no mesmo instante o Inferno pÎs-se a tremer e as portas da morte, bem como as fechaduras, despedaçaram-se, e os ferrolhos do Inferno romperam-se e caíram ao chão, deixando todas as coisas a descoberto. Satanås permaneceu no meio em pé, confuso e prostrado, com os pés presos por grilhÔes.

8E eis que o Senhor Jesus Cristo entrou rodeado de uma claridade sublime, manso, grande e humilde, levando em suas mãos uma corrente; com ela amarrou o pescoço de Satanås e depois de novamente unir suas mãos às costas, arremessou-o ao Tårtaro e pÎs seu santo pé em sua garganta, dizendo: "Fizeste muitas coisas mås no decorrer dos séculos; não deste nenhum descanso; hoje entrego-te ao fogo eterno'. E chamando novamente o Inferno, disse-lhe com autoridade: "Toma este amaldiçoado e perverso Satanås e mantém-no sob tua custódia até o dia que eu determinar'. O Inferno aceitou-o e ambos precipitaram-se no profundo do abismo. "Então Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador de todos, piedosíssimo e muito suave, saudando novamente Adão, dizia-lhe com bondade: "A paz esteja contigo, Adão, na companhia de teus filhos por todos os séculos dos séculos, amém'.

9E o pai Adão prostrou-se então aos pés do Senhor e, levantando-se, beijou suas mãos e derramou abundantes lågrimas dizendo: "Eis as mãos que me criaram, elas dão testemunho a todos'. Depois dirigiu-se ao Senhor, dizendo: "Vieste, ó Rei da Glória, para livrar os homens e integrå-los ao teu reino eterno'. E nossa mãe Eva caiu de maneira semelhante aos pés do Senhor, e levantando-se novamente, beijou suas mãos e derramou abundantes lågrimas enquanto dizia: "Eis as mãos que me criaram, elas dão testemunho a todos". "Então, todos os santos o adoraram e disseram aos brados: "Bendito o que vem em nome do Senhor, o Senhor Deus iluminou-nos. Assim seja por todos os séculos. Aleluia por todos os séculos: louvor, honra, virtude, glória, porque vieste do alto para visitar-nos'.

10E, cantando "aleluia' e regozijando-se de glória, acorriam ao Senhor. Então o Salvador perscrutou à sua volta e mordeu o Inferno, e com a mesma rapidez com que havia arremessado uma parte às profundezas do Tårtaro, a outra subiu consigo aos céus. "Então, os santos de Deus rogaram ao Senhor que deixasse nos Infernos o sinal da santa cruz, sinal de vitória, para que seus perversos ministros não conseguissem reter nenhum culpado que tivesse sido absolvido pelo Senhor. E assim se fez, e o Senhor colocou sua cruz no meio do Inferno, que é sinal de vitória e lå permanecerå por toda a eternidade. "Depois todos saímos dali na companhia do Senhor, deixando Satanås e o Inferno no Tårtaro. E nos enviou a nós e a muitos outros que havíamos ressuscitado com nosso corpo, para dar testemunho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e do que acontecera nos Infernos.

11"CarĂ­ssimos irmĂŁos, isto Ă© o que vimos e testemunhamos, depois de termos sido chamados por vĂłs e o que testemunha aquele que morreu e ressuscitou por nĂłs; porque da forma como as coisas aconteceram, elas foram escritas com todos os detalhes." E quando terminaram de ler o escrito, todos os que escutavam caĂ­ram com o rosto no chĂŁo e puseram-se a chorar amargamente, enquanto batiam duramente no peito e diziam aos gritos: "Ai de nĂłs! Aonde chegamos com nossa desgraça? Foge Pilatos, fogem AnĂĄs e CaifĂĄs, fogem os sacerdotes e levitas, fogem tambĂ©m o povo dos judeus dizendo entre soluços: "Ai de nĂłs! Derramamos sobre a terra sangue inocente'." Assim, entĂŁo, durante trĂȘs dias e trĂȘs noites nĂŁo provaram nem do pĂŁo nem da ĂĄgua e nenhum deles voltou Ă  sinagoga. Mas ao terceiro dia, o conselho novamente se reuniu e leu a carta de LĂȘucio na Ă­ntegra, e nĂŁo se encontrou nela nem mais nem menos, nem sequer havia mudado uma sĂł letra do escrito de Karino.

12EntĂŁo turbou-se a sinagoga e todos choraram durante quarenta dias e quarenta noites, esperando a morte e a divina vingança das mĂŁos de Deus. Mas o altĂ­ssimo, que Ă© todo piedade e misericĂłrdia, nĂŁo os aniquilou para que pudesse oferecer-lhes uma oportunidade de arrependimento. NĂŁo foram dignos, porĂ©m, de se converterem ao Senhor. CarĂ­ssimos irmĂŁos, estes sĂŁo os testemunhos de Karino e de LĂȘucio sobre Cristo, Filho de Deus, e de seus santos nos Infernos, a quem damos todas as graças e glĂłria pelos infinitos sĂ©culos dos sĂ©culos. AmĂ©m.

FIM

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